Cultura

Sobre mundos: As muralhas de Esparta

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Segundo uma antiga lenda grega, o governante de Esparta recebeu a visita de um rei de uma cidade vizinha. O visitante desejou, então, fazer um passeio pela cidade e apreciar suas belezas. O rei de Esparta disse ao amigo que não poderia, naquele momento, acompanhá-lo, mas o aconselhou não deixar de ver as muralhas da cidade, dizendo: “As muralhas de Esparta são as mais seguras de toda a Grécia!” Curioso, o rei visitante caminhou por toda Esparta e viu suas praças e edifícios, mas não encontrou muralha alguma cercando a cidade. Retornando ao palácio, o visitante perguntou ao rei de Esparta: “Você me falou tanto das muralhas da cidade, mas ela não possui muralha alguma!” O rei espartano mostrou um de seus servos e disse: “Ela possui sim, eis aqui uma de suas pedras. As muralhas de Esparta são formadas de pedras vivas!”

Em sua obra “A República”, Platão revela um íntimo vínculo entre o “cuidar de si mesmo” e o “cuidar dos outros”. Para o filósofo, a transformação do indivíduo e a transformação política não são processos diferenciados, mas simultâneos. Quem procura cuidar de sua vida deve, inevitavelmente, ocupar-se da vida dos outros. Em primeiro lugar, segundo Platão, podemos encontrar, entre estas duas dimensões, um vínculo de “implicação essencial”. O cuidar-se de si começa pela consciência de que devo me desenvolver na vida para a minha sobrevivência e para minha realização pessoal. Esta, porém, não está desligada do lugar onde vivo. O desenvolvimento de minha vida possui conseqüências sociais e gera benefícios aos outros. Uma vida realizada pessoal e profissionalmente estimula em todos os sentidos a realização de outras pessoas que vivem nesta mesma cidade através de seu exemplo, da geração e circulação de seu capital, criação e oportunidade de empregos, de sua postura de respeito para com os seus semelhantes, etc.

O inverso se faz verdadeiro. Aqui encontramos o segundo vínculo mencionado por Platão: a “reciprocidade”. Para que meus sonhos possam, com mais facilidade, ser realizados é necessário que eu viva em uma cidade na qual as instituições verdadeiramente funcionem, a honestidade exista e a prosperidade seja uma realidade. Se torna muito mais difícil a minha realização pessoal em uma cidade na qual os meus direitos não são respeitados e os impostos que pago ao Estado não retornam nítida e claramente para o meu bem-estar.

No livro “A República” encontramos uma lógica circularidade que a lei do “levar vantagem em tudo” não enxerga: salvar-se a si mesmo provoca a melhoria da cidade e, à medida que esta possui uma ordem de respeito e valores que permitem o desenvolvimento da vida de todos, a minha vida está salva. Por fim, Platão fecha o círculo nos chamando a atenção para o “vínculo de finalidade” que existe entre o “cuidar-se de si” e o “cuidar dos outros”.

A partir do momento que tomo consciência de que existe uma implicação essencial e uma reciprocidade entre a minha vida particular e o lugar onde vivo, torna-se fundamental ter como fim o cuidado para com a minha cidade. O meu desenvolvimento pessoal deve me preparar para ser politizado, ou seja, ser alguém que possa em seus ambientes concretizar uma vida social justa. Mais ainda, a partir do momento que me descubro um ser social posso me identificar com meus semelhantes que vivem em desvantagem ao meu redor. Só posso me tornar uma pessoa politizada a partir do momento que tomar consciência de minha dignidade, de meus direitos, dos valores que constróem uma vida segura, tranqüila e promissora ao meu redor.

A partir do momento que tomar esta consciência estarei sensível à falta de dignidade dos outros e à ligação estreita entre a minha vida individual e minha cidade. Ocupo-me comigo para poder ocupar-me dos outros.

O “vinculo de finalidade” me leva a ser sensível ao sofrimento de meus semelhantes e à consciência de ser politizado, de conhecer melhor os direitos e os deveres de cidadão, de não se calar frente às injustiças, de ser ativo socialmente, pois devo ocupar-me comigo para saber e poder ocupar-me com os outros. O “vínculo de reciprocidade” se torna realidade quando a cidade me oferece educação, condições de saúde, emprego e a base para a realização de minha pessoa, pois salvando-me, a sociedade está se desenvolvendo, e esta em desenvolvimento, salvo-me.

Por fim, o “vínculo de implicação” nos mostra que ser realizado pessoal e profissionalmente significa indiretamente gerar e movimentar o bem-estar para aqueles que me circundam. Os nossos problemas individuais estão intimamente ligados aos problemas dos outros, ou seja, aos problemas de nossa cidade. Enquanto usarmos palavras como “solidariedade”, “companheirismo”, “amizade” e “amor”, mas vivermos sob o reinado da inveja, da deslealdade, do desinteresse social e do ressentimento continuaremos sendo indivíduos que buscam a felicidade em uma infeliz coletividade.

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