Bairros

Comunidade rural convive com o abandono

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

O patrimônio de Rio Verde sempre foi pequeno, mas de uns tempos para cá tornou-se minúsculo, quase despovoado. Os poucos moradores que restaram já estão com uma idade avançada e encontrar crianças ou jovens no local é tarefa árdua. Em outros tempos, a situação do bairro era diferente.

“A vila era bastante agitada, com bares, lojas, escola. Até pousada o lugar chegou a ter”, conta Álvaro de Brito, coordenador da Defesa Civil de Bauru. Hoje em dia, o abandono é notório. O comércio, antes movimentado, foi reduzido a dois estabelecimentos, que abrem apenas no período da noite, para atender minguados cinco clientes diários cada.

“Faço isso pelo prazer de estar com os amigos, mas não posso depender desse bar para sobreviver”, afirma Pedro José dos Santos, de 61 anos, que trabalha como pedreiro em propriedades rurais da região. Ele morou em Rio Verde quando criança e lembra o tempo em que a agenda do bairro era lotada de eventos.

“Todo final de semana havia bailes e jogos de futebol. O campo de bocha vivia cheio de gente e faziam missa toda semana”, lembra. Hoje, um dos poucos momentos em que Rio Verde pode reviver a agitação do passado é no mês de janeiro, durante a festa do padroeiro São Sebastião. “Quando chega esse época, as ruas ficam repletas de carro e é difícil arrumar lugar para estacionar”, garante Costa.

A pasmaceira que impera na Rio Verde atual é situação relativamente recente. “Quando a escola ainda funcionava, o povoado era mais vivo”, diz Brito. Mas há cerca de dez anos a unidade de ensino do bairro foi desativada e os alunos passaram a ser transportados de ônibus pela prefeitura até o distrito de Tibiriçá. “Agora as crianças viajam durante uma hora e meia para chegar à escola”, reclama Costa.

Abandonado pelo poder público e quase desabitado, Rio Verde parece caminhar para o fim. “A tendência natural é de que esses povoamentos acabem”, vaticina Maurício Lima Verde Guimarães, presidente do Sindicato Rural de Bauru.

Para ele, o fim do rural é um processo inevitável. “Ninguém vai querer levar uma vida repleta de privações no campo quando pode ter acesso a conforto e facilidades nas grande metrópoles”, acredita.

“Além disso, não podemos esquecer que a zona rural não oferece empregos às pessoas”, lembra Guimarães, a respeito das mudanças tecnológicas que diminuíram a necessidade de mão-de-obra na agricultura.

A tese é polêmica, mas prontamente rebatida pela socióloga Dulce Andreatto Whitaker, pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que estuda temas ligados à questão agrária.

“Aqueles que acreditam que o rural irá desaparecer deveriam dar uma olhada na história, para perceber que a única categoria social que permanece, independente do sistema de produção vigente em cada período, é o camponês”, argumenta. “Há um preconceito grande com relação ao rural, que costuma ser visto como lugar de atraso”, reforça.

Apesar disso, ela reconhece que uma comunidade específica (Rio Verde) pode vir a se extinguir. “O desaparecimento de comunidades rurais é comum a regiões como a nossa, marcadas por uma produção agrícola que não fixa o homem no campo”, explica.

Se o futuro de Rio Verde é incerto, Whitaker não tem dúvidas em defender aquilo que chama de “volta ao rural”. “Numa época como a nossa, quando é grande a preocupação com questões relacionadas ao meio ambiente, esse retorno à natureza é essencial à qualidade de vida das pessoas e ao próprio planeta”, afirma.

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