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Entrevista da semana: Radialista resgata memória na 96 FM

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 8 min

Recordar é viver, já dizia a velha marcha de Carnaval. Num país onde as pessoas são freqüentemente acusadas de não cultivar a memória, pode parecer espantoso que alguém tenha ficado famoso apresentando um programa que trata justamente do passado.

Para Márcio Augusto Dias, 34 anos, recordar é mais do que viver, também é meio de vida. Ele é radialista e desde 2003 apresenta o “Túnel do Tempo”, programa de flash backs que vai ao ar de segunda-feira a sábado pela 96 FM, emissora onde começou a carreira, em 1994.

“Ao contrário do que muitos afirmam, acredito que o brasileiro tem memória sim, o descaso é da parte de pessoas que deveriam preservar a história mas não fazem isso direito”, diz.

Durante as quatro horas em que fica no ar (das 8h ao meio-dia), Márcio Augusto faz de tudo: toca músicas famosas, trilhas sonoras de desenhos e seriados antigos, além de interagir com o público em brincadeiras baseadas nos bons e velhos programas de auditório, como “Qual é a Música” de Sílvio Santos, por exemplo, de quem Márcio Augusto, por sinal, é fã incondicional.

A maior parte do material apresentado em “Túnel do Tempo” é dos anos 70 e 80 e a fórmula é tão bem sucedida que o locutor já tem sua legião de fãs espalhados por Bauru e região. “Tem um rapaz de Bariri, por exemplo, que liga todos os dias na rádio para conversar comigo”, afirma ele, que também é ouvido pela Internet em locais como Minas Gerais e Goiás.

Márcio Augusto, que nasceu em Bauru, já foi funcionário do setor de cobranças em lojas de departamentos antes de entrar para o rádio. Hoje, trabalhando em duas emissoras da cidade (96 e Veritas), o homem do “Túnel do Tempo” ainda guarda algumas horas do dia para se dedicar ao curso de publicidade, que faz atualmente na Universidade do Sagrado Coração (USC).

Descontraído e falante, como todo bom radialista, Márcio Augusto reservou um tempo para conversar com o Jornal da Cidade a respeito de sua vida pessoal e profissional. Ele também falou de passado, presente e de suas expectativas para o futuro.

Noveleiro de plantão, Márcio Augusto lamenta a falta de tempo para poder acompanhar as tramas atuais. Confira a entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Como surgiu seu interesse pelo rádio?

Márcio Augusto Dias - Eu ouvia muita música desde criança e quando jovem, na casa dos 20 anos de idade, tinha muitos amigos que trabalhavam na antiga Rádio Cidade (hoje 96 FM), por isso freqüentava bastante aquele meio. Essa proximidade fez com que me interessasse em seguir na profissão. Decidi perguntar a eles o que era preciso fazer para poder trabalhar no rádio. Foi quando eles me aconselharam a estudar e me preparar bem, pois era a única maneira de eu vir a merecer uma chance.

JC - E então você estudou e logo começou a trabalhar...

Márcio Augusto – Não foi bem assim. Fiz o curso de técnico em rádio no Serviço Nacional de Aprendizado do Comércio (Senac) e me formei em 1990. Depois disso, saí pela cidade batendo de emissora em emissora, esperando que me dessem uma chance, só que a oportunidade não vinha.

JC - Como você fazia para viver nesse período sem emprego?

Márcio Augusto – Na verdade, eu não estava desempregado, trabalhei em lojas da cidade, era funcionário do setor de cobrança. Mas meu sonho era trabalhar no rádio, por isso continuei procurando emprego nessa área, durante quatro anos. Quando já estava desanimando, recebi um convite do pessoal da Rádio Cidade, em 1994, e estou lá até hoje.

JC - Você entrou direto no “Túnel do Tempo”?

Márcio Augusto – O “Túnel” foi mais tarde, em 2003. No começo eu fazia a programação normal da rádio. Fiz todos os horários que você possa imaginar: manhã, tarde, madrugada. Então me puseram para apresentar um horário de flash backs que a emissora tinha. Só que surgiu um problema, pelo fato de o público ser predominantemente jovem: como encaixar um programa de músicas dos anos 70 e 80 numa rádio pop? Pensamos em todos os horários possíveis, até que um dia resolvi propor à direção: por que não experimentamos colocar o horário de flash backs na parte da manhã, quando a quantidade de jovens ouvindo rádio é menor? Assim, poderíamos aproveitar o público do (rádiojornal) “Vivacidade”, que tem um perfil mais adulto. Eles consideraram a idéia boa, tanto que o programa ocupa esse horário até hoje.

JC - O “Túnel do Tempo” tinha este formato desde o princípio?

Márcio Augusto - Olha, serei sincero com você, o “Túnel do Tempo” tal como é hoje não é uma idéia original minha. Entre 2000 e 2001, trabalhei como locutor na rádio Energia 97, de São Paulo, cobrindo folgas aos sábados. Lá eu também apresentava um programa de flash backs e o técnico de som costumava usar trilhas sonoras de filmes e seriados antigos, como “Swat”, “Perdidos no Espaço” e “Túnel do Tempo” (de onde, aliás, Márcio Augusto tomou emprestado o nome para o programa da 96 FM). Achei aquilo legal e resolvi fazer o mesmo aqui em Bauru, só que de modo ampliado.

JC - Como assim?

Márcio Augusto - Quando comecei com “Túnel do Tempo”, em 2003, costumava perguntar para as pessoas me telefonavam o que eles recordavam do passado. A maioria falava de novelas, comerciais, desenhos antigos ou mesmo de clubes, festas e programas de rádio que existiram na cidade. Incorporei esse material e também as brincadeiras, como O Cantor Mascarado - quer era uma quadro que o Gugu Liberato fazia nos anos 80 - ou o “Qual é a Música” - sou fã incondicional do Sílvio Santos. O público parece ter gostado

JC - Você sabe dizer qual o motivo de tamanho sucesso?

Márcio Augusto - Bem, creio que seja pelo fato de o programa tratar do passado, de coisas que as pessoas viveram de modo intenso e têm prazer em recordar. Em geral, o público gosta de coisas desse tipo. Às vezes ouço gente dizendo que o brasileiro não tem memória. O descaso vem, na verdade, das pessoas que deveriam preservar a história e não fazem isso direito. Que nosso povo tem memória, isso é evidente. O “Túnel do Tempo” é prova disso.

JC – Você afirma isso pelo retorno da audiência?

Márcio Augusto - Claro, não tenha dúvida. Veja no meu caso. Depois que passei a fazer “Túnel do Tempo”, que toca músicas dos anos 70 e 80, minha carreira ganhou uma notoriedade maior do que quando eu apresentava programas voltados para jovens. Além disso, meus ouvintes são fiéis e me escutam tanto na 96 como na rádio Veritas, onde apresento “A Hora do Brasil” às sextas-feiras (ele também é produtor do programa). E veja, em tese seriam públicos distintos, já que um “Túnel” toca flash backs enquanto “A Hora” toca MPB. Ainda assim, gente que me liga aqui, também liga lá. Aliás, tem gente que me telefona diariamente (risos).

JC - Diariamente?

Márcio Augusto - Sim, tem uma rapaz de Bariri que me liga todo santo dia. Não é só ele, tem mais gente que me telefona com regularidade e acabei ficando amigo de muitos deles. Isso sem contar as mulheres, que são maioria entre os ouvintes. Fiquei doente, alguns meses atrás e isso me fez ficar afastado do programa. Havia um grupo de senhoras que ligava todos os dias para saber notícias minhas, para desejar melhoras. Até corrente positiva fizeram e isso me alegra muito, pois é bom sentir que seu trabalho é bem recebido por pessoas de Bauru, da região e até mesmo de outros lugares do país.

JC - Além de trabalhar no rádio, você atualmente estuda publicidade na USC. Não seria melhor você ter buscado algo no jornalismo, uma área mais próxima daquela em que você trabalha?

Márcio Augusto – Essa foi uma dúvida que tive no começo, mas depois olhei pelo lado financeiro e percebi que na publicidade o retorno poderia ser mais promissor. Além disso, se pensarmos bem, a área não é tão distante daquilo que desenvolvo no rádio, pois faço muitas propagandas e merchandising no dia-a-dia.

JC - O que você gosta de fazer quando não está nas trabalhando ou estudando?

Márcio Augusto - Ouço músicas de todos os estilos, tenho gosto eclético. Também assisto muito televisão, sobretudo seriados e desenhos antigos. Sem falar que adoro novelas - pena que hoje em dia não sobra tempo para acompanhar as que estão no ar.

JC - Com essa falta de tempo, você não corre o risco de ficar sem material para continuar produzindo seu programa no futuro? Como fará no dia em que tiver de falar da época em que vivemos?

Márcio Augusto - A maior parte dos ouvintes pensam que vivenciei tudo aquilo que apresento no “Túnel”. Na realidade, o grosso do material é fruto de pesquisas que faço na Internet, livros, revistas, portanto o programa não seria prejudicado. Agora, para ser sincero, não sei dizer quantos anos ainda o “Túnel do Tempo” pode durar...

JC – Qual a razão da dúvida?

Márcio Augusto - Hoje em dia o programa faz um sucesso imenso, tem seu público fiel e tudo mais. O problema é que não sei se daqui 15 ou 20 anos, aqueles que hoje são jovens terão algo para recordar. Não quero parecer saudosista dizendo isso, mas se olharmos bem, veremos que tudo atualmente é muito passageiro. Antigamente, um cantor fazia uma música de sucesso e passava meses e meses trabalhando com ela. Isso marcava nas pessoas. Hoje é diferente, lançam uma coisa após outra, não dão tempo para que o público assimile. Tudo anda muito descartável. Não sei como denominar esse processo, nem se ele é fruto da globalização ou da Internet. Sei que acho difícil que no futuro os ouvintes tenham algo marcante para lembrar desta época.

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