Implantar uma mesquita em Bauru. Este é o desafio do muçulmano Abdullah, que em árabe significa ‘servo de Deus’. Uma missão impossível? Pode ser. Ainda mais quando essa tarefa cabe a um brasileiro de descendência portuguesa, que não tem nenhuma afinidade com o povo e a cultura árabe, berço do islamismo.
Além desse desafio, Alexandre Tomé Zonta, 20 anos, recém-convertido à religião islâmica, a que mais cresce no mundo, tem outros obstáculos pela frente. O principal é vencer o preconceito, não só entre a população em geral, mas também entre os descendentes árabes que moram em Bauru e professam a mesma fé do profeta Mohammad (Maomé).
Abdullah, nome escolhido após a conversão ao islamismo, não foi bem aceito no meio do povo árabe bauruense. E, não bastasse isso, enfrenta uma série de insultos e gozações quando sai na rua vestido como um muçulmano. Diante disso, fica a pergunta: O que leva um jovem sem nenhum vínculo histórico com o Islã a fazer uma escolha tão radical? A resposta é direta. “A fé que eles (muçulmanos) têm me atraiu. Ela é muito forte”, justifica Abdullah.
Brincadeira séria
Ex-espírita, ex-usuário de droga e ex-roqueiro, Abdullah, atualmente desempregado, entrou para o mundo dos muçulmanos após uma brincadeira de mau gosto. Ele ligou para uma mesquita de São Paulo com o objetivo de insultar o povo islâmico. Quando a pessoa atendeu, foi chamada de terrorista pelo jovem bauruense. Abdullah conta ainda que chamou os muçulmanos de “um bando de loucos”, mas apoiava a briga deles contra os Estados Unidos.
“Quando acabei de falar aquele monte de babaquice, a pessoa perguntou meu nome e falou comigo calmamente sobre os conceitos errados que a população tem da religião islâmica.” A reação extremamente contida desmontou o agressor. “Fiquei sem saber o que dizer. De tão sem graça, desliguei o telefone”, recorda Abdullah.
Passado alguns dias, ele voltou a ligar, mas desta vez para pedir desculpas e tirar algumas dúvidas sobre o islamismo. Pouco depois, Abdullah recebeu pelo correio material sobre a religião e passou a se aprofundar no assunto, até se converter, há cerca de três anos. “Percebi que havia uma guerra difamatória contra os muçulmanos”, declara.
Missão
Desde então, Abdullah já visitou a mesquita em São Paulo e agora tem a missão de implantar um templo islâmico em Bauru, onde os muçulmanos bauruenses poderão se reunir para os cultos.
“Minha primeira batalha (dentro dessa missão) foi contra o preconceito. Parte do povo árabe é preconceituosa, não aceita brasileiros”, afirma. Abdullah relata que uma vez chegou para um grupo de árabes e estendeu a mão para cumprimentá-los e ninguém teria retribuído o gesto.
“Pensei em desistir, mas conclui que eu estava ali por causa de Deus e não dos árabes, nem da mesquita”, diz ele. Até agora, Abdullah afirma ter localizado cerca de 50 muçulmanos em Bauru. Mas a tarefa de alugar um salão ou uma casa para reunir as pessoas está difícil de ser cumprida, o que torna mais distante o sonho de construir uma mesquita na cidade.
Segundo Abdullah, ele quis usar sua casa para as reuniões, mas parte da família, que tem fortes ligações com o catolicismo, foi contra. “Apesar da dificuldade, não vou desistir tão cedo”, promete.