Articulistas

A educação não é tudo


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Nós, paulistas, vimos sendo assaltados no direito de poder desfrutar de nossa liberdade. Estamos acuados em nossas casas, com medo de sair à rua, atropelados em nosso cotidiano, como se fôssemos nós as feras, os criminosos. E os ataques espocam por aí, atingindo supermercados, casas bancárias, delegacias de polícia etc. O que causa mais apreensão é essa onda de mansidão bovina por parte da sociedade, diante do jogo de empurra-empurra das esferas estadual e federal, cada uma procurando eximir-se de responsabilidades. O povo não reclama, não esbraveja, não cobra. Paira no ar a tibieza dos responsáveis pelo nosso destino. Incapazes de tomar uma decisão, seja por falta de vontade política, seja por falta de conhecimentos específicos, deixam o barco correr sem amarras. E, sentindo tamanha pusilanimidade, os meliantes aproveitam-se para mostrar sua força. O seqüestro de um repórter, transformado em instrumento de negociação, é bem o espelho de uma sociedade desmoralizada, amorfa e sem governo. Cabe a pergunta: que fazer a curto prazo? Ceder? Endurecer?

Não somos especialistas em segurança nacional, por isso, só nos norteiam princípios básicos para equacionar a situação de momento. Medidas mais austeras devem ser tomadas imediatamente. Não estamos defendendo a pena de Talião: mate-se, esfole-se, desde que o inimigo tenha matado ou esfolado. Lembremos o chamado “meio-termo de ouro”, de Aristóteles, ou o equilíbrio entre os dois extremos. Se nossos governantes se deixassem orientar por esse princípio filosófico, saudado há mais de quatro séculos A.C., não poderiam encontrar uma posição nem frouxa nem draconiana? Se é difícil encontrar respostas para o agora, é um pouco mais fácil apontar soluções para médio e longo prazo. Restam-nos ainda alguns conhecimentos de pedagogia, que o tempo não esgarçou.

E, embora nossa visão não contenha nada de novo mesmo para as mentes desavisadas, seria necessário, em primeiro lugar, desmascarar a retórica vazia dos chamados “filósofos” dos direitos humanos, que jogam todas as fichas na ressocialização dos bandidos. O ambiente e a herança delineiam a força da educação. Estarão fadados ao insucesso os defensores inocentes da reinserção social de homens marcados por estigmas degenerativos ou oriundos de ambientes promíscuos. O principal obstáculo reside na própria liberdade individual. Grande parte desses delinqüentes, alguns presos em cela de segurança máxima, outros transitando soltos pela sociedade e espalhando pânico, estará disposta a se regenerar? Quando o homem não quer, a educação não se realiza. Adianta levar o indivíduo para tomar banho se ele não quer cheirar bem? A liberdade é o requisito prévio e indispensável para a educação do ser humano. Em torno da liberdade gira todo o concernente à educação. Por isso, já dizia García Hoz: “A educação está a serviço de seu próprio limite”.

Um movimento dominante na Europa durante os séculos XVII e XVIII - “Aufklãrung” ou Época das Luzes -, insistia na necessidade de “iluminar”, esclarecer as amplas camadas da população, e porque entre o povo imperavam a incerteza e a superstição, dedicou-se especial atenção à educação. Não é por acaso que a pedagogia, como ciência, foi fundada paralelamente a esse movimento. Nessa ocasião já lutavam pelos chamados “direitos naturais” dos cidadãos, por um tratamento mais humano aos infratores. Faz tempo que o homem inventou a pólvora e descobriu a América. Não é nova também a tentativa para dignificar o homem. É preciso, contudo, distinguir o possível do ideal. Ainda hoje, em pleno século XXI, até que ponto a humanidade conseguiu “iluminar” em quantidade e em qualidade a mente dos homens?

A educação, embora possa muito, não pode tudo. É de uma ingenuidade infantil ou de uma santa simplicidade defender sem ressalvas a tese da recuperação do facínora. Pode-se até tentar. Embora a pedagogia venha se aprimorando com teorias e pesquisas cada vez mais intensas, ainda estamos vivendo numa era crepuscular. Pairam dúvidas se o homem está melhor agora ou na época de Sócrates. Para nós, paulistas, mergulhados nessa extrema violência e destruição, a melhor defesa contra o terror, obviamente, é a educação. É preciso dizer, no entanto, até à exaustão, a educação não é onipotente nem onipresente. Não faz promessas categóricas nem oferece remédios milagrosos... Existem remédios mais amargos, mas remédios!

A autora, Maria da Glória De Rosa, é colaboradora de Opinião, e-mail: mgderosa@uol.com.br

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