Em 22 de agosto de 1846, o arqueólogo inglês William John Thoms (1803-1885), pesquisador da cultura popular européia, publicou um artigo com um título “Folk-lore”, na revista The Athenaeum, propondo a criação desse termo. Portanto, folclore como conhecemos na língua portuguesa é derivado do inglês folk, quer dizer povo, e lore, que significa estudo, conhecimento. O significado do vocábulo é o conjunto de atividades, de maneiras de sentir, pensar e agir da população de uma região. Em linhas gerais folclore é o estudo dos costumes e tradições de um povo. Os estudiosos agrupam a idéia de folclore em oito categorias diferentes: linguagem, música e dança, usos e costumes, crendices e religiosidade, artesanato, brinquedos, festas e literatura. Sem sombra de dúvida, o folclore brasileiro é um dos mais ricos do mundo. “Nele estão as marcas dos diferentes povos que formaram nossa nação, principalmente o indígena, o africano e o europeu”, como afirma o antropólogo, ensaísta, romancista e político Darcy Ribeiro (1922-1997).
Dessas matrizes culturais herdamos um folclore que se assemelha a “uma colcha de retalhos multicolorida com uma mistura de figuras geométricas, estampas e texturas”. Nossos mitos, lendas, músicas populares, ritmos e danças, comidas típicas constituem nosso riquíssimo acervo folclórico. Qual leitor já não ouviu falar do curupira, do saci-pererê, da iara, da mula-sem-cabeça, do boto-cor-de-rosa, do negrinho do pastoreio, da lenda da vitória-régia, do surgimento dos bichos, do nascimento das estrelas, da lenda da mandioca, do guaraná e tantos outros? A capoeira, a congada, o cateretê, o forró, o frevo, o maracatu, reisados e cheganças, samba formam um amálgama rítmico fantástico, envolvente e arrebatador. “O samba surgido da mistura do jongo, a dança de roda de origem banto, toque dos tambores do candomblé jejê-nagô, esses ingredientes agregados a outros de origem européia e indígena”. Essa especificidade musical brasileira influenciou e influencia até hoje diferentes gerações que, para nossa sorte, conduzem a música brasileira à consagração internacional: Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Morais, Noel Rosa, Pixinguinha, Braguinha, Carmem Miranda, Villa-Lobos, Carlos Gomes, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Margareth Menezes. A culinária brasileira é alquimia pura. Uma invenção maravilhosa. Precisa dizer mais das cores, aromas e sabores da terra Brasilis? Na realidade somos um “povo novo” herdeiro de um território continental repleto de riquezas naturais e culturais que necessitam ser divulgadas, enaltecidas e acima de tudo preservadas.
Foram as lendas e mitos que ninaram, acalentaram, assombraram, povoaram a imaginação de gerações de brasileiros. E é graças à inspiração e talento de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), Monteiro Lobato (1882-1948), Mário de Andrade (1893-1945), Silvio Romero, Renato Almeida, Rossini Tavares e outros folcloristas que as raízes nacionais permanecem vivas. Não podemos esquecer a vital contribuição dos educadores. O dia 22 de agosto é comemorado em todo o Brasil como o dia do Folclore. Qual o verdadeiro significado desse dia? O que ele representa para nós enquanto povo? Como cultivar e desenvolver sentimentos patrióticos? São muitas as respostas para curto espaço.
Talvez a mais importante delas seja o resgate de nossa identidade brasileira como ser político, social, histórico. Assim disse Mikhail Gorbachev “as pessoas é (sic) que fazem a história. Portanto, a tarefa de reestruturação é despertar aquelas pessoas que “caíram no sono”, é garantir que cada um sinta que é dono do país”.
O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é professor de Ciência Política no curso de direito e de antropologia no Iesb-Preve, doutorando em Ciência Política pela PUC-SP e mestre em Ciência Política pela PUC-SP