Estive em Belo Horizonte para participar de uma comissão destinada a distribuir verbas de apoio à publicações científicas, convidado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais. Honroso convite à parte, divido com os leitores alguns momentos saborosos vividos numa cidade com 1.500 botecos e, por isso mesmo, cheia de gente inteligente que gosta de curtir um bom papo. Não é sem motivo que saíram de BH os maiores cronistas do jornalismo brasileiro como Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Paulo Mendes de Campos e tantos outros, hoje eternizados em bronze nos passeios públicos daquela capital. Um dos meus companheiros de mesa, professor de Literatura, contava sobre a paixão desvairada de Proust pela mãe. Uma mãe judia que correspondia à paixão do filho com a mesma intensidade. Os dois trocavam abraços, beijos e longas cartas derramadas. Quando a mãe, possessiva, onipresente, recebia uma carta dele, ficava louca. A uma dessas cartas, ela respondeu qualquer coisa assim: “Leio, releio as suas cartas, mordisco todos os cantinhos e depois, à noite, ainda as provo, se sobrar alguma coisa de bom para saborear”.
Adoro essas historinhas sobre figuras olimpianas. Um dos presentes, com jeito debochado, perguntou: “Quer dizer que a frescura foi a herança maior que a mãe lhe deixou?” O proustiano não ligou para a provocação e continuou discorrendo sobre a vida do romancista que é, para ele, o inventor do novo romance. Quem não sabia ficou sabendo das intimidades de Proust. De suas paixões de adolescente por rapazinhos bonitos. Da asma, doença que o maltratou como uma maldição. De sua reclusão num quarto com cortinas nas janelas, onde ele se exercitava, todos os dias, para escrever um romance de três mil páginas. Proust dormia às oito horas da manhã, acordava às cinco da tarde, ganhava beijinhos da mãe, tomava remédios em quantidades industriais, escutava música e escrevia, escrevia. À noite andava pelas ruas desertas de Paris, correndo o risco de ser assaltado, e comia “confit de canard” (pato conservado em banha) nos bistrôs.
No bar de Belô a gente comia iscas de surubim braseado. Outro circunstante também deu a sua contribuição nesse mergulho na vida do autor de “Em busca do tempo perdido”. Contou que esta obra-prima foi recusada por vários editores como “velha”, “ultrapassada”, “burguesa”, “alienada”. Um dos críticos foi fulminante: “Não consigo entender como se pode empregar trinta páginas para descrever como se vira e revira na cama antes de pegar o sono”. Sei que Proust, confiante no seu livro, teve que pagar a primeira edição. Três meses após o seu aparecimento o livro fazia sucesso em toda a Europa. Os editores que o haviam recusado se arrependeram. Os críticos baixaram a cabeça, entre eles André Gide que se desculpou, envergonhado, pelo “grave erro e um dos remorsos mais cruéis da minha vida”.
De repente a conversa derivou para o filme sobre a vida de Zuzu Angel. Alguém a comparou à Antígona, de Sófocles, que também desobedeceu ao tirano pelo desejo de enterrar o irmão morto na luta contra o rei, com as cerimônias fúnebres tradicionais. Zuzu lutou pelo direito de enterrar seu filho, morto pelos órgãos de repressão que sumiram com o corpo do jovem, durante a ditadura militar. Tanto Antígona como Zuzu pagaram com a própria via por essa rebeldia. Por desrespeitar a ordem do déspota, Antígona é presa e conduzida a uma caverna que lhe servirá também de túmulo ainda em vida. E Zuzu morre, “acidentalmente”, em um túnel da cidade do Rio de Janeiro, túnel que hoje leva o seu nome.
Arrisquei-me a dizer, sem demagogia, que muitas mulheres, na história, demonstraram muita coragem no combate à tirania. Antígonas, Zuzus, as mães da Praça de Maio, Marias (Madalenas ou não) continuam no mundo todo lutando pelo amor e a vida, que em um sentido amplo significa o direito de ser livre. Voltei para o meu hotel com a sensação de quem ganhou. Recebi mais do que pude dar. Dormi feliz. ( O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)