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Chico estende turnê paulistana de ‘Carioca’

Por Luiz Fernando Vianna | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

As cortinas se abrem, e Chico Buarque já está no palco. Entoa “Voltei a Cantar” (Lamartine Babo), para demarcar seu novo retorno aos palcos, e emenda com mais duas canções, sem deixar espaço para palmas. Balbucia um “boa noite, obrigado” e só fala outra vez com a platéia na 20.ª música. Show sem encenações ou falatórios, “Carioca” inicia hoje temporada de seis semanas no Tom Brasil Nações Unidas - as quatro primeiras estão com lotação esgotada; os ingressos para as de outubro começam a ser vendidos nesta sexta-feira.

O ensaio da última quinta, realizado no Auditório Ibirapuera para alunos de escolas de música, revelou duas horas de muita e boa música. O repertório de 29 itens supera o de 26 de “As Cidades” (1999) e o de 24 de “Paratodos” (1994), os dois espetáculos anteriores de Chico. Presença explícita no título, o Rio é o tema do cenário de Helio Eichbauer e de um terço das músicas.

Mais do que a hegemonia do Rio, no entanto, o que se destaca é o encaixe das canções, às vezes muito sutil, sempre estimulante para o público. Não que seja preciso ficar atento a esse quebra-cabeça para usufruir 28 composições de Chico, interpretadas pelo próprio e por uma entrosada banda de sete músicos. Mas observá-lo ajuda a entender como foram escolhidas as 16 do baú do artista que se somam às 12 de “Carioca”, o CD.

Depois da vinheta de Lamartine, o show começa com “Mambembe”, feita para o filme “Quando o Carnaval Chegar”, e termina com “Na Carreira”, que encerrava o balé “O Grande Circo Místico”. Cantam a arte feita na estrada, bem diferente da reclusão das temporadas literárias de Chico. O par formado por “Bye Bye Brasil” e “Cantando no Toró” (25.ª e 26.ª músicas) completa o painel da vida mambembe. Terceira do show, “Dura na Queda” se liga ao teatro por ter sido feita para o musical “Crioula” e ao Rio pelo balanço de gafieira. Dedicada a Elza Soares, ainda faz par com a seguinte, “O Futebol”, que tem Garrincha, marido da cantora, como um dos homenageados.

Bloco amoroso

Depois de “Morena de Angola”, em que faz o gracejo de tocar calimba (caixinha de madeira cujo som lembra o de um chocalho), Chico apresenta um bloco romântico-onírico de cinco músicas que estão no novo CD. É o início da fase “sentada” do show, pois as primeiras e últimas canções ele interpreta em pé, sempre com o violão - a exceção é “Grande Hotel”, em que divide o tamborim e o canto com o baterista e parceiro Wilson das Neves.

O bloco amoroso se liga a um de artes cênicas graças a “Mil Perdões”, feita para “Perdoa-me por me Traíres”, o filme baseado na peça de Nelson Rodrigues. Outro blues, “A História de Lily Braun”, vem antes de “A Bela e a Fera” - ambas de “O Grande Circo Místico”- e de “Ela É Dançarina”. O cinema, então, é exaltado nas novas “As Atrizes” e “Ela Faz Cinema”. O clima de bossa nova suingante da segunda é a chave para um grupo de músicas que têm o Rio como paisagem.

A última, “Bolero Blues”, parceria com o baixista Jorge Helder, se casa bem com “As Vitrines”, ambas sobre um homem que não alcança a mulher sonhada. “Subúrbio”, que elenca bairros do “outro lado” da cidade maravilhosa e cita o alarido do funk e do rap, contrasta com “Morro Dois Irmãos”, diálogo com a montanha imponente da zona sul. Os diferentes Rios desembocam em “Futuros Amantes”. “Na Carreira” fecha o show depois do xote-rap “Ode aos Ratos”, parceria com Edu Lobo também feita para o palco. No bis, Chico cai no samba. Ou melhor, a platéia cai, enquanto ele canta “Sem Compromisso”, “Deixe a Menina” e “Quem Te Viu, Quem Te Vê”. É hora de o recital dar lugar à festa.

• Serviço

“Carioca”, de hoje a 15 de outubro. Quintas às 21h30, sextas e sábados às 22h, domingo às 19h, no Tom Brasil Nações Unidas (r. Bragança Paulista, 1.281, São Paulo). Ingressos de R$ 80,00 a R$ 160,00. Informações: (11) 2163-2000 ou www.tombr.com.br.

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As músicas do show

• “Voltei a Cantar” (Lamartine Babo, 1939)

• “Mambembe” (Chico Buarque, 1972)

• “Dura na Queda” (Chico Buarque, 2000)

• “O Futebol” (Chico Buarque, 1989)

• “Morena de Angola” (Chico Buarque, 1980)

• “Renata Maria” (Ivan Lins/Chico Buarque, 2005)

• “Outros Sonhos” (Chico Buarque, 2006)

• “Imagina” (Tom Jobim/Chico Buarque, 1983)

• “Porque Era Ela, Porque Era Eu” (Chico Buarque, 2006)

• “Sempre” (Chico Buarque, 2006)

• “Mil Perdões” (Chico Buarque, 1983)

• “A História de Lily Braun” (Edu Lobo/Chico Buarque, 1982)

• “A Bela e A Fera” (Edu Lobo/Chico Buarque, 1982)

• “Ela É Dançarina” (Chico Buarque, 1981)

• “As Atrizes” (Chico Buarque, 2006)

• “Ela Faz Cinema” (Chico Buarque, 2006)

• “Já Passou” (Chico Buarque, 1980)

• “Palavra de Mulher” (Chico Buarque, 1985)

• “Leve” (Carlinhos Vergueiro/Chico Buarque, 1997)

• “Bolero Blues” (Jorge Helder/Chico Buarque, 2006)

• “As Vitrines” (Chico Buarque, 1981)

• “Subúrbio” (Chico Buarque, 2006)

• “Morro Dois Irmãos” (Chico Buarque, 1989)

• “Futuros Amantes” (Chico Buarque, 1993)

• “Bye Bye Brasil” (Roberto Menescal/Chico Buarque, 1979)

• “Cantando no Toró” (Chico Buarque, 1987)

• “Grande Hotel” (Wilson das Neves/Chico Buarque, 1997)

• “Ode aos Ratos” (Edu Lobo/Chico Buarque, 2001)

• “Na Carreira” (Edu Lobo/Chico Buarque, 1982)

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