São Paulo - A Volkswagen deixará de produzir até 940 veículos por dia se os funcionários de São Bernardo do Campo (SP) que deflagraram na tarde de ontem greve por tempo indeterminado conseguirem paralisar todas as linhas de produção. Esse é volume diário de veículos produzidos na unidade dos modelos Gol, Saveiro, Polo, Polo Sedan, Kombi e do Fox exportado para a Europa.
A fábrica de São Bernardo, a maior das cinco da montadora alemã no Brasil, emprega 12.400 funcionários, mas só 8 mil estão na produção. Os demais cumprem trabalhos administrativos, área que está concentrada no ABC.
Segundo a Volks, se não chegar a um acordo com sindicatos para demitir 3.600 funcionários e reduzir direitos trabalhistas dos demais, a empresa terá que fechar a fábrica e dispensar 6.100 pessoas.
Desde 2000, a unidade de São Bernardo recebeu investimentos de R$ 2 bilhões, mas ainda é considerada pouco competitiva em relação às demais fábricas. A principal vantagem da unidade Anchieta é a proximidade do porto de Santos, que facilita a exportação. Por outro lado, as vendas ao exterior da montadora foram as mais afetadas pela desvalorização do dólar.
Segundo dados da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a Volks é a maior produtora da veículos do Brasil. Entre janeiro e julho, a montadora alemã produziu 456.391 automóveis, caminhões e ônibus. Trata-se de quase 30% do 1,523 milhão de veículos produzidos por todas as montadoras brasileiras no mesmo período.
História
Nos mais de 50 anos em que está presente no Brasil, a montadora alemã já produziu mais de 15 milhões de veículos. Cerca de 9,5% de suas vendas em todo o mundo são fechadas no Brasil. A empresa decidiu que o país deveria abrigar sua primeira fábrica fora da Alemanha em 1949.
A Volkswagen do Brasil só nasceu em 1953, quando começou a produzir os primeiros Fuscas em um armazém alugado no bairro do Ipiranga (São Paulo). Nessa época, os veículos utilizavam apenas peças importadas. Até 1957, 2.820 unidades foram montadas no Ipiranga (2.268 Fuscas Sedan 1.200cc e 552 Kombi).
Durante o governo de Juscelino Kubistscheck, a Volks percebeu que estavam sendo criadas as condições para a instalação de uma montadora de veículos no Brasil com peças nacionais. A escolha de São Bernardo do Campo (SP) para abrigar a fábrica ocorreu em 1956. No ano seguinte, o primeiro veículo com 50% de peças nacionais era produzido na unidade, uma Kombi.
A fábrica só foi oficialmente inaugurada em 18 de novembro de 1959 com a presença de JK. Lançado em 1959, o Fusca brasileiro rapidamente tornou-se sucesso de mercado. No total, foram vendidos no País 3,3 milhões de unidades do modelo.
Outros sucessos que vieram depois foram o Karmann-Ghia, a Variant, a Brasília e o Passat. Em 1980, com o parque automobilístico brasileiro consolidado, a Volkswagen decidiu entrar no mercado de caminhões. Também nos anos 80, a empresa lançou o Gol, o carro mais vendido do País e também o mais exportado. Em 1987, em um momento de queda do mercado, para reduzir os custos e ter melhor aproveitamento dos recursos disponíveis, a Volkswagen e a Ford juntaram-se e criaram a Autolatina Brasil.
Em sete anos, a Autolatina colocou no mercado vários carros híbridos, como o Apolo, Logus e Pointer, da VW, e o Verona, Royale e Versailles, da Ford. O fim da Autolatina coincidiu com a abertura da economia, em 1994. O aquecimento do mercado interno apontou uma necessidade das duas marcas competirem em todos os segmentos do mercado, com produtos individualizados. Dois anos depois da separação, com investimentos em torno de US$ 780 milhões, a Volkswagen inaugurou duas fábricas no Brasil e uma na Argentina.
Em novembro de 1995, foi inaugurado o centro industrial General Pacheco, na Argentina, e um ano depois, em novembro de 1996, a fábrica de caminhões, em Resende (RJ), e a fábrica de motores, de São Carlos (SP). Em janeiro de 1999, com investimentos de R$ 1,2 bilhão, a empresa inaugurou a fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná.
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A crise
O que a Volkswagen quer
• Não renovar acordo de garantia de emprego de 12 mil funcionários de São Bernardo do Campo.
• Demitir funcionários para reduzir custo.
• Concede 0,4 do salário por cada ano trabalhado aos empregados que aceitarem Plano de Demissão Incentivada (PDI) - nesse caso empresa indica quem sai.
• Aumentar valor do desconto do plano médico: desconto passaria de 1% do salário para 3%.
• Reduzir em 35% a tabela salarial para novas contratações, com novos pisos para quem ingressar na fábrica.
• Não conceder aumento acima da inflação neste ano, como estava previsto em acordo salarial desde 2005.
• Conceder reajuste de 85% de perdas da inflação medida pelo INPC.
• Mudanças no banco de horas, com pagamento de hora extra e adicional quando o limite de crédito de horas for acima de 400 horas.
• Estender a jornada diária em duas horas por dia ou até oito horas por semana em caso de falta de qualidade, sem pagamento de hora extra.
• Não ter a obrigação de contratar alunos do Senai - a cada seis meses eram contratados 30 estudantes.
O que os trabalhadores querem
• Não aceitam dispensa de empregados.
• Querem discutir alternativas para a redução de custos sem a perda de direitos trabalhistas conquistados.
• Aceitam discutir Plano de Demissão Voluntária (PDV) - nesse caso, o trabalhador é que decide se quer ou não sair.
Fontes: Volkswagen, sindicatos e BNDES
Cronologia
3 de maio A empresa anuncia aos sindicatos que vai demitir e reduzir custos Sindicalistas afirmam que VW quer cortar 6 mil trabalhadores até 2008 de três unidades: São Bernardo, Taubaté e São José dos Pinhais (PR); Empresa não informa quantos seriam demitidos.
31 de maio Trabalhadores fazem passeatas de protesto no ABC e no Paraná contra as demissões e paralisação de 24 horas nas três fábricas.
Junho Sindicatos pedem que a Volkswagen coloque no papel as medidas que pretende adotar para iniciar processo de negociação.
Julho Volks faz acordo com funcionários de Taubaté, com a previsão de corte de 700 empregados em dois anos mediante pagamento de 0,4 salário por ano trabalhado - empresa indicará quem sai. Segundo VW, com acordo novos investimentos estão previstos na fábrica.
21 de agosto Empresa dá ultimato e prazo de cinco dias para fechar acordo com sindicato.
23 de agosto Sindicato e empresa iniciam negociações
27 de agosto Negociações terminam sem acordo.
28 de agosto Governo anuncia suspensão de empréstimo para a VW até que montadora acerte acordo com os trabalhadores do ABC.