E lá estávamos nós, outra vez, em território europeu contra os franceses...
Também éramos favoritos, apesar do tropeço antes das semifinais; também tínhamos o time dos sonhos de qualquer treinador.
Perdemos dois sets, e de repente parecia que o mundo poderia desabar sobre esse grupo vencedor, habituado a ganhar quase tudo o que disputou, sempre com a mesma concentração e garra. Fatalista, lembrei da final das Olimpíadas de 1984, quando a “Geração de Prata” sucumbiu aos donos da casa, que haviam derrotado em fase anterior. A diferença é que eles perderam quando podiam, e aprenderam com isso. Nós ganhamos e achamos que já sabíamos tudo. Agora, na Rússia, a coisa também estava ruça! E, para piorar, a esse quadro cinzento as recordações da Copa da Alemanha acrescentaram alguns raios e trovões... Mas havia uma diferença fundamental entre o passado e o presente: as contagens dos sets não mostravam entrega ou desânimo!
Quando o terceiro set começou, alguns raios de sol começaram a aparecer do lado brasileiro. Ainda havia relâmpagos, mas eles começaram a cair na quadra francesa, nas cortadas precisas e preciosas de nossos atacantes; a visão do adversário começou a ficar prejudicada pelo nosso bloqueio, e nossa defesa fechou o tempo para os atacantes gauleses.
Nossos jogadores saltaram às alturas e se atiraram ao solo com a potência dos músculos, a certeza da técnica, o prazer pelo esporte e o amor pelo Brasil!
Foi então que lembrei novamente das Olimpíadas de 1984 e enxerguei o verdadeiro ponto comum entre elas: Bernardo Rezende! Ele também esteve lá, só que no banco, reserva que era do absoluto William. Mas ele também era absoluto no time da Atlântica Boa Vista, que ganhava quase tudo da Pirelli do então levantador titular e capitão de nossa seleção de vôlei.
Bernardinho aprendeu com seus erros e depois, como técnico, passou a inventar acertos: uma pilha de nervos fora da quadra é verdade; mas, por isso mesmo, passando energia o tempo todo para os jogadores.
Ele já havia feito isso no vôlei feminino, onde conquistou tudo de bom: títulos, Vera Mossa e Fernanda Venturini... Agora comprova em escala exponencial sua competência na equipe masculina (só com títulos...), inscrevendo essa geração de atletas definitivamente na história do esporte brasileiro e mundial.
Junto com José Roberto Guimarães - da igualmente vitoriosa e temida seleção feminina, e técnico da primeira “Geração de Ouro” - eles formam uma dupla de técnicos de primeira grandeza. Assim, temos times e técnicos dos sonhos!
Os tempos mudam e hoje são os jogadores e treinadores de futebol que precisam aprender com seus pares do vôlei: mais aplicados, eficientes, cultos e humildes.
Nosso futebol se curvou, dominado, sem brio e sem reação, à força napoleônica. Nosso vôlei, pelo contrário, deu o troco a cada vôo estratosférico de Giba. Lá em cima, contemplando o campo adversário e decidindo, num átimo, entre um tiro paralelo, cruzado, uma cravada ou explorar o bloqueio, era como se ele gritasse a plenos pulmões: “Vim, vi e venci”!
Que Dunga, que também esteve lá dentro, tenha essa mesma qualidade como técnico. Afinal, ninguém nasce pronto! Mas, principalmente, que nossos jogadores de futebol tirem o “salto” alto e calcem as “sandálias da humildade”...
Pena que não dê para escalar Ricardinho, Giba, André e seus colegas na seleção de futebol. Eles seriam todos expulsos em menos de quinze minutos...
Parabéns, Bernardinho e cia.! Graças a vocês agora somos, de fato, hexa!
O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é escritor, engenheiro e professor universitário