Washington - Pela primeira vez - e com algum atraso em relação a especialistas e mesmo a outros setores do governo americano - o Pentágono afirmou, em relatório divulgado ontem, que a escalada de violência entre xiitas e sunitas no Iraque pode levar o país a uma guerra civil. A constatação também marca, segundo a Defesa, uma mudança na natureza das ações no país, que não mais se restringem ao combate de uma insurgência cujo alvo eram as tropas dos EUA.
O relatório apresentado ontem foi feito a pedido do Congresso americano e analisa a situação de segurança no Iraque nos últimos três meses. No período, os ataques aumentaram 24%, para 792 por semana, e as mortes violentas saltaram 51% para uma média diária de 120.
Curiosamente, o trimestre abarca o período imediatamente posterior à morte de Abu Musab al Zarqawi, líder da Al-Qaeda no país, pelas forças americanas. Zarqawi era tido como maior fomentador do conflito entre a minoria árabe-sunita - que representa pouco menos de 30% dos iraquianos e detinha o poder durante o regime de Saddam Hussein - e a maioria árabe-xiita - que perfaz mais de 60% da população e só chegou ao poder com as eleições do início deste ano, após mais de duas décadas de repressão pelo ex-ditador sunita.
O relatório também vem em momento delicado. O presidente George W. Bush acaba de lançar uma nova ofensiva retórica para defender sua estratégia no Iraque e a manutenção de seus soldados no país ante o declínio do apoio à guerra e à aproximação das eleições legislativas, em novembro.
Além da matança generalizada e do crescimento da ação de esquadrões da morte, afirma o relatório, os dois grupos também disputam áreas-chave da Capital, criam encraves sectários, desviam recursos econômicos e impõem suas pautas religiosas e políticas.