Cultura

Sobre mundos: Para além do amor

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

“Como vai você?”, perguntou um turista a um nativo africano. “Eu vivo!”, respondeu sorrindo o nativo, “Você tem uma proposta melhor?” Antes do nascimento, o ser humano possui a sensação de completude. No útero de nossa mãe, nos sentimos completos, inteiros e bem acomodados. Com o nascimento, este universo pleno é destruído e, por conseqüência, nos sentimos em um estado de desamparo. Desta forma, nos tornamos seres “faltantes” e a partir daí se inicia todo nosso desenvolvimento como indivíduos. Esta insatisfação, esta sensação de desamparo é o impulso para tudo que buscamos e possuímos: relacionamentos, profissão, bens materiais, etc.

Buscar nosso desenvolvimento como pessoa significa caminharmos em busca do resgate de nossa completude perdida. Porém, a nossa individualidade realmente é construída à medida que somos capazes de lidar melhor com a dor original do desamparo. Esta dor do desamparo é algo que nos caracteriza, que existe desde o momento do nascimento, primeira e principal ruptura de nosso elo fundamental. Tudo o que se segue é mera repetição. Na busca de completude podemos, porém, cair na armadilha do sentimento tão valorizado pela nossa sociedade: o amor romântico. O sentimento de amor por determinada pessoa pode nos levar a acreditar que nos tornaremos completos através do outro.

Pura ilusão uma vez que nenhum ser humano pode nos completar, pois somos por natureza seres solitários. Solidão aqui não significa viver isolado, sem pessoas ao redor. É necessário compreender que a solidão constitui-se simplesmente em um estar só, ter projetos individuais e não considerar os relacionamentos inter-pessoais a “tábua de salvação”. Os relacionamentos devem existir apenas como eventual fonte de prazer, entretenimento e troca de experiências. Admitir a solidão como condição existencial é nos compreendermos essencialmente como indivíduos.

A nossa identidade, aquilo que chamamos de “eu” no pleno sentido da palavra, só se forma realmente por meio de uma substancial experiência de estar só. A solidão é consciência de que se é inteiro e de que cada um terá de encontrar seus meios para atenuar as dores da vida e aprender a conviver com elas. Portanto, para a nossa realização pessoal e bem-estar coletivo é fundamental reaprender a solidão como uma coisa boa. Assumir esta verdade é compreendermos que somos seres únicos e que devemos nos orgulhar disso. Todo cérebro é geneticamente diferente.

Mesmo que as famílias queiram influenciar ao máximo seus descendentes, cada criança conclui de modo próprio sobre os fatos que observa e sobre tudo que lhe ocorre. O ser humano tem que assumir de modo definitivo a condição de ser solitário esteja ou não acompanhado. Em outras palavras, vivemos individualmente e somos seres originais.

Segundo Flávio Gikovate, pessoas que conseguem se imaginar sozinhas, menos dependentes da presença de outras para se sentir minimamente acomodadas no universo, podem também começar a refletir melhor sobre a liberdade e pretender ser criaturas menos dependentes da aprovação externa e mais aptas para agir de acordo com suas convicções e pontos de vista. Tudo que nos faz menos preocupados com a opinião dos outros, tudo que pode nos levar a ter uma vaidade menor ampliará nossa liberdade individual. Um problema gerado pela falta de consciência de nossa solidão existencial é a idéia de que o amor nos leva à completude.

Isso acontece porque o amor romântico nos dá a forte sensação de uma aconchegante fusão. Com o amor alcançamos, pelo menos em seu início, o tão almejado aconchego, mas depois o amor romântico nos retira aos poucos a individualidade. Um relacionamento duradouro depende da evolução para além do amor. Um verdadeiro relacionamento amoroso nunca é a fusão de duas metades, mas deve ser a aproximação de dois inteiros. Duas pessoas que desejam construir uma família devem, sem perder o amor, construir uma relação de verdadeira amizade.

Ao contrário do amor, sentimento que nos cria necessidade e, portanto, pode gerar ciúme, dominação, submissão e perda da individualidade, a amizade encontra-se no domínio do desejo. Eu sou amigo porque faço a opção e trato o outro como indivíduo e não como minha parte. No amor romântico o respeito sempre está ameaçado, pois através dele tenho a necessidade de me completar no outro. Pessoas mais independentes e mais conscientes de que a vida é uma aventura individual podem muito bem encontrar companheiros de viagem, criaturas dispostas a caminhar por rotas similares, cada uma indo por si e todas andando bem próximas umas das outras.

Assim são as relações de amizade, assim também deve ser a relação amorosa, em que a profunda intimidade e a máxima comunicação entre indivíduos provocam um calor e aconchego inigualáveis. Só podemos nos respeitar se somos capazes de nos bastar. Para melhor compreender a essência da solidão, da amizade e do amor basta ler a lúcida obra de Flávio Gikovate “Ensaios sobre o Amor e a Solidão” (MG Editores).

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