Nacional

Huck se populariza para ganhar audiência

Por Jéssika Torrezan | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Reforma de carros, de casas, gincanas com prêmios em dinheiro e até teste para ator. Tudo protagonizado por anônimos. São quadros como esses que hoje dão o tom ao “Caldeirão do Huck” (Globo), programa que Luciano Huck apresenta aos sábados à tarde, há seis anos, na Globo.

Nem sempre foi assim. Quando entrou na programação da emissora, famosos povoavam a atração. “Quase sete anos na Globo me fizeram amadurecer muito como profissional e pessoa. Passei a entender a minha missão na TV, o que realmente me dá prazer e o que as pessoas esperam de mim”, conta Huck. E o que as pessoas esperam dele? “Gosto de gente, de olhar nos olhos, de ouvir histórias. Todo mundo tem uma boa história para contar se você souber ouvir”, afirma Huck, ressaltando que a mudança não foi em busca de audiência, mas que aconteceu naturalmente.

E, pelo jeito, tem dado certo. Líder no horário há quatro anos - antes perdia para o programa de Raul Gil, então na Record -, o “Caldeirão” oscila entre 17 e 19 pontos no Ibope, números que não podem ser desprezados uma vez que, aos sábados, a quantidade de pessoas que assistem televisão é menor do que durante os dias da semana. Em 19 de agosto, o quadro “A Nova das Oito” teve pico de 26 pontos, mais que a soma da audiência das outras emissoras no mesmo horário.

Para Huck, ainda que os quadros sejam para reformar casas, carros ou dar dinheiro, no final o que importa são as histórias de vida que os personagens têm. E boas histórias é o que não faltam no programa. Como a de seu Antônio Pinto, que vendia ovo em um Corcel caindo aos pedaços para sustentar a família e ganhou uma reforma completa na “piabinha” - era como ele chamava o carro.

Ou a das irmãs Pereira, que moravam em uma casa construída em 1938 e que nunca tinha visto uma reforma. Ou a do aposentado que ganhou o grande prêmio na “Superchance” de boliches, que foi chamado às pressas porque o outro participante não compareceu. As histórias do “Agora ou Nunca”, um dos quadros mais antigos do programa, não raro arrancam lágrimas. Em uma edição do quadro, inclusive, a dupla Sandy & Junior ficou tão emocionada que, mesmo a garota tendo perdido o prêmio, levou o dinheiro - que foi dado pelos irmãos.

Segundo o sociólogo e especialista em televisão Laurindo Leal Filho, essa postura do “Caldeirão” é uma coisa benéfica para o programa. “A TV brasileira é muito inflexível, é bom que novos formatos sejam experimentados”, conta Leal. Mas ele alerta para o fator “exploração da desgraça humana”. “No final, o que importa é a audiência. É perigoso criar a ilusão de que os problemas de todos serão resolvidos.”

Ele afirma que a adesão das pessoas para esse tipo de programas não vai diminuir. “Existe um fascínio enorme pela televisão, é um espaço privilegiado. Mesmo que o participante seja ridicularizado ou que sua desgraça seja exposta, não importa, ela passa a ter status com as outras pessoas.”

Huck não acha seu programa assistencialista ou explorador, pelo contrário. “Aquilo é tudo de verdade. Envolvo-me com a história de cada um. E quando dá certo, é uma sensação muito gratificante.”

Entre as qualidades do apresentador, que acabam por se refletir no programa, Julio Wainer, professor de comunicação da PUC-SP, ressalta que vê em Luciano um “desejo sincero” de promover um diálogo com as pessoas, mesmo que não pertença ao mundo delas. Ele também destaca o fato de que os prêmios não vêm de graça - os concorrentes têm que dar alguma coisa em troca. E isso é, segundo o pesquisador, positivo, porque deixa as atrações menos assistencialistas.

Atualmente o “Caldeirão” vai no extremo oposto da atração que o antecede, “Estrelas”, comandado pela mulher do apresentador, Angélica. Esse contraponto é uma fórmula que dá certo para ambos, afirma Wainer. “As pessoas querem ver o mito na tela, o glamour dos artistas, mas também querem se ver, por isso, essa fórmula funciona”, analisa. Ainda segundo Wainer, “Caldeirão” é o precursor de uma fórmula que tende a permanecer.

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