Geral

Garotas partem para briga em escolas

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Grande parte das vezes, elas são bonitas e bem educadas. Também são boas alunas. Mas o destaque natural decorrente destes atributos parece nem sempre bastar. Ultimamente, parte delas também protagoniza brigas (geralmente provocadas por razões banais) nas imediações das escolas. Com faixa etária entre 13 e 16 anos, elas passaram a tomar espaço (antes exclusivo) de alguns rapazes matriculados no horário noturno.

A “nova onda” de agressões foi confirmada em estudo e percebida tanto por policiais que trabalham na Ronda Escolar, quanto pela Diretoria de Ensino (DRE). De acordo com a dirigente regional de ensino, Vera Nilce Ludke Jarussi Gomes de Sá, o assunto já foi discutido inclusive entre diretores. Nos últimos dois anos, cerca de 40 casos foram levados à DRE.

“Não são muitos e não adianta mandar o aluno embora. Temos de resolver dentro da escola”, comenta. Quando a situação se alonga, por regimento, o Conselho de Escola (formado pela diretora, professores, pais e alunos) deve ser convocado. A iniciativa, porém, não foi necessária no caso de uma aluna de 16 anos de uma escola estadual de Bauru, que terá o nome preservado para evitar constrangimentos.

Transferência

A mãe dela decidiu transferi-la para outra instituição, depois que a garota apanhou pela segunda vez. No primeiro caso, no ano passado, tornou-se alvo porque conversou com o paquera de uma colega. “Não sei porquê (fui vítima de novo). Foi antes das férias (deste ano). Começou no banheiro. Eu estava saindo e ela me chamou. Me deu um tapa no rosto”, conta.

Quando a briga saiu de lá, até o amigo dela que tentou apartá-las levou bofetões. “Ela me disse que se fosse suspensa, me bateria de novo”, conta. Mas a rival, embora seja boa aluna, foi líder de sala e integrante de projetos de cidadania. Segundo a reportagem apurou, o desentendimento teria partido de um trabalho não compartilhado, pedido pela professora em sala de aula.

Mas as principais razões dos desentendimentos são mesmo os namorados e o comportamento de superioridade de algumas garotas, explica o soldado da Base Comunitária de Segurança Centro Marcelo Vanderlei Barreira, que há dois anos trabalha na ronda escolar. “Normalmente, elas se organizam para brigar fora da escola. São meninas de todo tipo (belas ou não, estudiosas ou não). Às vezes, uma chama a turma (de outro bairro) para pegar a outra. Têm também as oportunistas”, comenta.

Estas esperam a polícia se aproximar para provocar a rival: afinal, como serão apartadas pela PM, o risco de eventuais ferimentos é menor. “Muitas vezes, nos informam (de brigas “agendadas”) no intervalo. Já à noite, está bem tranqüilo”, informa.

Delegacia

Na última semana, mais uma briga envolvendo meninas foi registrada no plantão policial. Segundo boletim de ocorrência, na tarde de quinta-feira uma garota de 14 anos foi até a porta de uma escola estadual de Bauru acompanhada por um amigo. Ambos tinham a intenção de agredir outra estudante.

Por sorte, os pais da menina que iria apanhar acompanharam o desentendimento e evitaram que o rapaz se aproximasse da filha, também de 14 anos. Ele portava uma faca de cozinha.

____________________

Tendência recente

Estudos de psicologia escolar e educacional realizados junto às escolas estaduais de Bauru há 30 anos pela Universidade do Sagrado Coração (USC) mostravam que a agressão física e verbal tinham os meninos como principais protagonistas. Já no caso delas, a agressividade vinha em forma de exclusão de colegas ou adultos, como é o caso dos pais. Mas nos últimos dois anos, a situação mudou.

“Quando começamos a reavaliar os dados, verificamos que aumentou a incidência de brigas entre meninas”, informa o psicólogo e professor da USC Marcelo Mendes dos Santos, que também desenvolve tese de doutorado sobre o assunto. Na opinião dele, esse comportamento das garotas pode ser reflexo da agressividade da própria sociedade, cada dia mais aguerrida.

“Também pode ser uma evolução da condição da mulher. Antes elas sofriam caladas, agora não. Esse comportamento está presente em qualquer classe social, inclusive nas escolas particulares”, acrescenta. Pode também ser conseqüência da globalização, diz a dirigente regional de ensino, Vera Nilce Ludke Jarussi Gomes de Sá.

“Gerou (a globalização) um comportamento individualista, extremamente competitivo. Elas precisam mostrar que são melhores, para o bem ou para o mal”, ressalta. De acordo com a dirigente, antigamente não acontecia ou era velado. “Agora, elas não escondem”, conclui. Mas para as mães consultadas, o que falta mesmo é educação dentro de casa.

Comentários

Comentários