Os prestadores de serviço nem sempre respeitam os direitos daqueles que são sua principal razão de existir: os clientes. Prova disso é que o setor costuma ser um dos “campeões” de reclamações em órgãos como o Procon. Mas há o outro “lado da moeda”. Isso porque há consumidores que “pisam na bola” quando esquecem - ou ignoram - que também têm deveres a cumprir em uma relação de consumo, como a existente entre mecânicos e proprietários de automóveis.
E são os próprios mecânicos que contam quando os donos de carros cometem esses deslizes. A pressão dos consumidores para a execução de serviços paliativos a fim de baratear os custos dos reparos é uma das principais reclamações. “Vivemos constantemente em situação difícil, pois a maioria dos carros hoje ninguém faz os reparos como deveria. É só remendo aqui e ali e, às vezes, você quer fazer certinho e o cara não tem dinheiro. A gente avisa o cliente que não vai ficar bom e a pessoa rebate que é para vender e que assume a responsabilidade. Depois o carro volta a dar problema e a pessoa ainda corre no Procon ou vai na Justiça para reclamar”, argumenta Amauri do Nascimento, mecânico há 30 anos em Bauru. E acrescenta:
“Isso já aconteceu de monte comigo. É toda semana. Tem gente que fiz o serviço há um ano e quer garantia até hoje. Há quem venha xingando, gritando, ameaçando chamar a Polícia e alegando que o pouco que mandou fazer eu fiz errado.”
Por isso, para evitar problemas do gênero, Nascimento afirma tomar alguns cuidados. “Prefiro perder dinheiro e o serviço ou até arrumar o carro para a pessoa a fim de não ter dor de cabeça depois”, conta. Outro profissional do ramo a se considerar já “vacinado” com tais situações é Djalma Francisco, que toma diversos cuidados para se resguardar de eventuais queixas no Procon ou processos judiciais.
“Consultei um advogado que me orientou a adotar esse procedimento. Se a pessoa não aprova o orçamento, escrevo todas as peças que teriam de ser substituídas e as que foram autorizadas pelo consumidor, que assina esse documento. Dá trabalho escrever tudo, mas é importante separar o reparo que deveria ser feito do que foi autorizado pelo cliente e depois fornecer a nota fiscal. Senão depois a nota fiscal poderá ser usada pelo cliente para querer garantia de uma peça que não foi trocada. Entretanto, sempre procuro entrar em acordo com o consumidor para ver o que é possível fazer”, sustenta Francisco.
A providência tomada por Francisco para proteger-se destes problemas também é recomendada pela advogada Rosana Chiavassa, uma das maiores especialistas do País em defesa do consumidor. “Agindo assim, os mecânicos inibirão muitas aventuras dos consumidores, como ações de má-fé que se aproveitam das brechas dadas pelos próprios prestadores de serviço. O consumidor já está um pouco conscientizado de seus direitos, mas não dos seus deveres. A maior má-fé é a mentira, quando a pessoa oculta que foi orientado e que sabia o que poderia ocorrer e, mesmo assim, ainda quer protestar posteriormente com o profissional. Muitas vezes os mecânicos esquecem que estão lidando com gente que podem ser oportunistas e confiam tanto no seu trabalho que não tomam os cuidados”, enfatiza.
Para Chiavassa, o consumidor tem o dever de ser transparente com os prestadores de serviço. “O consumidor pode ser responsabilizado quando não toma as cautelas devidas ou não explica direito o que está ocorrendo no carro. Ele precisa ser leal até para facilitar para quem vai executar essa tarefa”, ressalta a advogada.