Os fãs de quadrinhos suspiraram aliviados ao confirmar que o diretor Brett Ratner, mais conhecido pelos dois “A Hora do Rush” e “Dragão Vermelho”, não havia demolido, com “X-Men – O Confronto Final”, tudo o que Bryan Singer construíra até então. A bem da verdade, é bem difícil apontar grandes “erros” ou prever o que Singer teria feito de diferente. O filme chega às locadoras em versão com poucos extras, então é certo que haverá uma edição especial em breve.
Ratner manteve o visual já conceituado dos dois primeiros “X-Men”, assim como a premissa de tornar os personagens e conflitos os mais sérios e reais possíveis – dentro da idéia de que eles são mutantes que nasceram com poderes extraordinários. O roteiro de Simon Kinberg (“Sr. e Sra. Smith”) e Zak Penn (“X-Men 2”) é enxuto e consegue agregar os elementos principais de duas fases dos personagens, a Saga da Fênix Negra e a descoberta da “cura” para o gene mutante, do período de Joss Whedon (“Buffy – A Caça-Vampiros”) à frente dos quadrinhos.
A “cura”, no filme, vem do mutante interpretado pelo jovem Cameron Bright, explorado pela grande companhia farmacêutica de Warren Worthington, pai de um rapaz com asas de anjo que se tornará... o Anjo (Ben Foster). A idéia de uma vacina para erradicar as mutações, cada vez mais comuns na humanidade, abala qualquer resquício de paz entre humanos e os “Homo superior”, causando protestos por toda parte.
Se, por um lado, há mutantes como Vampira (Anna Paquin), que nunca conseguiram adaptar-se a seus poderes, há outros como Magneto (sir Ian McKellen) e sua Irmandade de Mutantes, que planejam lutar contra tal “cura” com todas as forças. A defesa de uma convivência pacífica entre humanos e mutantes, defendida pelo professor Charles Xavier (Patrick Stewart) e o secretário para assuntos mutantes do governo americano, Hank McCoy, também conhecido como Fera (Kelsey Grammer), perde sentido quando descobrem que os planos de Magneto são mais abrangentes do que simplesmente fazer piquetes nas ruas.
Nesse tempo, levando à risca a brincadeira das HQs dos X-Men de que “quem é morto sempre aparece”, Jean Grey (Famke Janssen) é encontrada por Wolverine (Hugh Jackman) e Tempestade (Halle Berry), não sem antes dar cabo de seu amor a Scott Summers, o Ciclope (James Marsden). Sua transformação na Fênix Negra, uma entidade cósmico-mutante que não é exatamente explicada no filme, já havia ganho uma semente no primeiro filme, na cena em que a máquina de Magneto para transformar a humanidade em mutantes atinge a moça.
Em resumo, Jean Grey possui poderes além de seu controle, que podem decidir definitivamente o futuro da raça humana. Quando a Fênix toma o controle, ela passa para o lado de Magneto na luta contra a opressão aos mutantes.
São apenas 104 minutos de filme para explorar duas das mais profundas tramas dos mutantes da Marvel. Para alegria dos fãs, Ratner não poupou personagens e desfila dezenas ao longo do filme. O problema é a falta de atenção a boa parte deles, especialmente aos mais interessantes, como Fera e Anjo, e o “empurrão” de Magneto para o “lado do mal”.
Principal oponente dos heróis, Magnus nunca foi exatamente um vilão, por gozar da amizade eterna de Xavier e por ter seus atos justificados em sua história, como prisioneiro em campos de concentração da Segunda Guerra (ou ainda por ter passado pelas mãos de dezenas de roteiristas, que mudam sua personalidade a cada saga). Em “O Confronto Final”, ele é mau - defende seus ideais, mas perde o “cinza” do conflituoso personagem original.
Wolverine permanece como o “frontman” dos mutantes, ao lado da “vencedora do Oscar” Tempestade. De qualquer maneira, é triste ver como o mutante canadense vem perdendo seu lado selvagem nas telas – o que deve ser resolvido em seu filme-solo, que mostrará suas origens.
A direção de Ratner confirma como ele é um eficiente operário de Hollywood: mesmo em uma mitologia que ganha fãs por tratar de temas como preconceito e as diferenças entre homens, ele consegue aplainar conflitos para explodir coisas – com efeitos especiais mais que perfeitos, há que se dizer. Ele fez seu trabalho, e fez bem, mas não há dúvidas de que “O Confronto Final” não será a última nem a melhor parte dessa história (posto de “X2”) e que Bryan Singer vai fazer falta no Instituto Xavier.