Antigamente, eram as governantas que cuidavam de tudo dentro de uma casa enquanto os patrões saíam para trabalhar. Eram elas que gerenciavam todos os afazeres domésticos. Aos poucos, essa figura foi ficando cada vez mais rara até praticamente desaparecer dos lares brasileiros.
Hoje, ela voltou com uma roupagem nova. Agora são os homens, na maioria das vezes, que assumem esse papel. Além de jardineiro, pedreiro, encanador, eletricista, eles fazem também os serviços de banco, vão ao supermercado, ao açougue, padaria, farmácia, levam as crianças para a escola, academia, casa de amigos. Enfim, o novo gerente do lar é um profissional multifuncional, uma espécie de faz-de-tudo.
A diferença em comparação com as antigas governantas é que eles não interferem no trabalho dentro da casa. Ou seja, não dão ordens para a cozinheira ou faxineira, por exemplo. Isso fica a cargo da patroa.
Normalmente, esses profissionais são contratados por famílias de classe social mais abastada. Por esse motivo, os patrões evitam se expor. É o caso de Rosana (nome fictício a pedido da entrevistada), que há sete anos conta com os serviços de um “faz-de-tudo”. Sem tempo para as tarefas do lar e para levar e buscar os filhos nas escolas e diversos cursos paralelos, ela e o marido tiveram de recorrer aos serviços de um governante do lar.
“Como nós dois trabalhamos, não temos condições de sair para levar as crianças nos cursos. E eu não queria depender da minha mãe para isso”, conta Rosana. A solução foi contratar alguém que fizesse tudo o que o casal não tinha tempo de fazer. “Resolveu o problema. Agora temos até tempo de sobra”, comemora ela.
Mas a primeira experiência não foi lá muito agradável. Depois de quatro anos com um empregado multifuncional dentro de casa, o casal descobriu que vinha sofrendo pequenos furtos. Apesar da decepção, a família decidiu contratar outro funcionário para os mesmos serviços.
“Quando os filhos são pequenos, eles ficam a maior parte do tempo em casa. Mas quando crescem, vem os cursos”, diz Rosana, que tem uma menina de 15 anos e um menino de 11.
O substituto
Como não podia abrir mão do empregado faz-de-tudo, o casal foi atrás de outro e encontrou o ex-lavrador Antônio Sérgio Alves, 34 anos, que não chegou a completar o ensino fundamental. Ele trabalhou durante oito anos na casa de uma família que tinha uma relação de amizade com Rosana e o marido.
Durante um período, ele dividiu seu tempo entre uma casa e outra. De manhã, trabalhava em uma e à tarde em outra, até se transferir definitivamente para a casa dos novos patrões. Com o tempo, ele foi adquirindo a confiança da nova família e passou a administrar praticamente toda a rotina da casa.
No começo, a função dele era levar as crianças para a escola. Depois mandaram embora o jardineiro e Alves passou a fazer o serviço. Daí para o “faz-de-tudo” foi um pulo.
As tarefas começam logo de manhã. Mesmo antes de chegar na casa, Alves passa na padaria e compra pão e leite fresquinhos para a família. Durante uma parte da manhã, ele ajuda o patrão na fábrica de móveis e, quando necessário, sai para serviços externos.
Às 11h30, ele sai para almoçar. Por volta das 12h30, começa o corre-corre. Primeiro, ele leva a filha para a escola e aproveita para pegar os filhos do patrão e levá-los para a casa.
Maratona
Todo dia à tarde, as “crianças” têm um compromisso diferente: aulas de catequese, aulas de inglês, tênis, academia, reforço escolar e outros. Durante o intervalo entre uma aula e outra, Alves aproveita para fazer os serviços de banco, ir ao supermercado, farmácia, açougue, levar o carro para abastecer, para lavar, para trocar o óleo, para calibrar pneus, limpar a piscina, cortar a grama, levar a cachorra ao veterinário e uma série de outras tarefas. Para isso, Alves fica com um carro da família 24 horas.
Com tantas atribuições, Alves fala que tem hora que “dá uma pane” na cabeça. “Às vezes estou fazendo alguma coisa, mas fico preocupado com o que eu tenho que fazer depois, porque não sei se vai dar tempo”, comenta.
A presença dele nos bancos é tão comum que fez amizade com gerentes e funcionários a ponto de deixar as contas com o caixa e voltar para buscá-las depois do expediente, quando não tem tempo para esperar. “O dia passa que a gente nem vê”, fala.
Se ele se atrasa, as “crianças” ligam para saber onde ele está. Rosana conta que teve de “dar uma cortada” nos filhos porque eles viviam pedindo para passar na casa de amigos e isso atrapalhava os serviços que Alves tinha de fazer.
Quando precisam dele durante o sábado à tarde, ele recebe pelas horas extras. No domingo, ele normalmente fica em casa, com a mulher e os filhos.
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Piso
De acordo com o Sindicato dos Empregadores Domésticos de Bauru e Região, o piso salarial de um empregado doméstico é R$ 350,00, mas tudo depende da negociação entre patrão e empregado. Os funcionários têm direito a férias, 13º salário e vale-transporte, entre outros benefícios.
A contratação de profissionais como a governanta ou seu equivalente do sexo masculino, segundo o sindicato, geralmente é feita obedecendo indicação de amigos.