Cultura

Humor nos palcos do Brasil

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 5 min

Sem ter onde morar, ele dormiu por três anos no porão de um teatro, muito próximo do lugar onde sempre quis estar: o palco. A persistência lhe rendeu um papel na prestigiada comédia “Trair e Coçar é Só Começar”, na qual há três anos, o ator bauruense Sylvio Tolledo arranca risos da platéia como o vendedor de jóias Olavo. O espetáculo está em cartaz no Teatro TIM, em Campinas, e no Teatro Santo Agostinho, em São Paulo.

No início, ele era o patrão da espevitada empregada doméstica Olímpia, que todo o tempo complica e descomplica a trama, baseada em supostas infidelidades e numa sucessão interminável de mal-entendidos. “Um amigo me indicou para fazer o teste e passei. O personagem, Doutor Eduardo, fica boa parte do tempo em cena, mas ele é mais sisudo, e eu prefiro o humor. Por isso fiquei apenas um ano com o personagem”, diz Tolledo.

Pedido atendido, papéis trocados. Depois de um rodízio interno, o ator assumiu o lugar do explosivo Olavo e, de patrão, ele foi “rebaixado” a vendedor de jóias. “É, perdi o emprego, fiquei sem dinheiro e virei vendedor”, brinca o ator. “O papel é menor, mas vai ao encontro do meu gosto”, complementa.

Mas, vez ou outra, o Doutor Eduardo encarna no ator, ou vice e versa. “Como é uma peça há muito tempo em cartaz, temos alguns atores em stand by. Na semana passada, por exemplo, um amigo teve outros compromissos e assumi o Doutor Eduardo e outro ator fez o meu personagem”, explica.

Depois de tantos anos com o mesmo espetáculo, a pergunta é iminente: dá para enjoar? “De jeito nenhum. O teatro funciona com o público e, a cada dia, são pessoas diferentes e, conseqüentemente, peças diferentes. Fora isso, me divirto tanto com as situações da peça que às vezes não agüento e tenho que parar para respirar”, confessa.

A peça, escrita por Marcos Caruso, entrou no Guiness Book em 94, 95, 96 e 97 como a mais longa temporada ininterrupta do teatro nacional – 20 anos – e já atraiu cerca de quatro milhões de espectadores. O espetáculo já teve diversos protagonistas e se tornou, inclusive, filme dirigido por Moacyr Góes, mas nunca foi apresentado em Bauru por falta de iniciativa local. “Não entendo porque o teatro de Bauru veta algumas peças. Por diversas vezes tentamos levar o espetáculo à cidade, mas a resposta sempre foi negativa”, lamenta.

Tolledo deve ficar em cartaz com a peça até abril de 2007, quando completa 40 anos. Depois, o ator planeja saltos maiores. “Quero fazer outras coisas. Estou em conversação com a Record e com a Globo. Se surgir um papel legal, vou aceitar. Será um desafio atuar na televisão e eu adoro desafios”, comenta.

Tragicomédia

De Bauru, Sylvio Tolledo só guarda boas lembranças. A infância difícil nunca foi sinônimo de tristeza. “Meus pais não tinham boas condições financeiras, mas o essencial nunca nos faltou, que foi o amor o e o carinho que sempre me deram”, recorda.

Com grande parte da família ainda em Bauru, Tolledo costuma vir à cidade sempre que a agenda permite. “Por mim ainda moraria em Bauru. Adoro ficar deitado descalço no quintal da casa dos meus pais, lembrando a minha infância. Mas o mercado no Interior ainda é difícil”, lamenta.

O talento para atuar foi descoberto pela mulher que hoje batiza o Teatro Municipal, Celina Lourdes Alves Neves. “Aos 14 anos fiz parte do grupo de leituras de Celina. Não cheguei a encenar com ela, mas aprendi muita coisa”, afirma.

Das leituras, Tolledo foi para a prática com espetáculos produzidos pelos alunos da escola Guedes de Azevedo, onde estudava. “A única apresentação pública que fizemos foi no Parque Vitória Régia. Naquela época, as opções teatrais em Bauru eram mínimas”, lembra.

Em 1984, com 17 anos, Tolledo deixou para trás pais e amigos e foi para a Capital, morar com a avó, atrás de seus sonhos. “Meu primeiro personagem foi o Homem-Aranha, depois fiz o Michey Mouse. O primeiro sem máscara (risos) foi o Conde do Sabugosa”, afirma. Depois, com um amigo, ele se tornou o palhaço Perereca, reconhecido como a melhor dupla de palhaços da Capital ao lado de Ximbica. Com o talento para o humor reconhecido, Tolledo decidiu abrir uma agência de eventos. “Na época comecei a realizar telegramas animados. Havia apenas umas quatro agências com esse serviço em São Paulo”, diz.

No final da década de 90, com a experiência dos trabalhos, o ator debruçou-se no humor adulto com a peça “Quarteto em Ri Maior”, que esteve em Bauru há cerca de cinco anos. “Este espetáculo foi um show! Fazia dez personagens diferentes. Ficamos uns seis anos com a peça”, empolga-se. A atuação rendeu o prêmio Quality de melhor ator, em 2005.

Por conta desse e de outros compromissos profissionais - como a dublagem para DVD de Curly, um dos astros de “Os Três Patetas” -, o ator abriu mão da agência para fazer o que mais gostava: atuar. “Ser ator é ótimo, porque você pode viver todas as vidas que desejar. Ao mesmo tempo em que sou milionário, sou pobre. É viver tudo o que quero ser, sem ser exatamente nada”, explica.

Com tantos anos no teatro, Tolledo se diz preparado para qualquer trabalho. “O teatro é a grande escola. Atualmente, me sinto preparado para entrar para a televisão que, comercialmente, me dará maior visibilidade; e também para o cinema, que se aproxima bastante do teatro”.

Numa carreira de altos e baixos, muitas vezes a vontade foi virar as costas para o palco. “Em meados de 90, tive que morar por três anos no porão de um teatro porque não tinha dinheiro para pagar o aluguel. Mas quando me vinha a idéia de desistir, pensava: ‘eu não deixei meus pais e saí de Bauru para isso’. E voltava a trabalhar. Hoje me sinto recompensado com meu trabalho e feliz ao lado de minha mulher e filha”, finaliza.

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