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Consumismo assassino


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Surgiu nos Estados Unidos uma nova especialidade acadêmica que pode ser traduzida como “estudo das práticas de consumo”. Trata-se de uma disciplina híbrida de sociologia, antropologia e de psicologia com o objetivo de compreender o que motiva os desejos e as práticas do consumidor. E vão mais além esses pesquisadores: querem saber que efeitos o comportamento e as expectativas do consumidor têm na definição dos quadros de valores da sociedade.

Quando Truman Capote escreveu “A sangue frio”, livro-reportagem sobre um bárbaro crime ocorrido no Kentucky, expôs toda a frieza como agiram dois assassinos ao trucidar uma família de quatro pessoas para roubar 45 dólares e assim satisfazer necessidades de consumo. Claro que eles pensavam haver alguns milhares de dólares na casa de fazenda assaltada, suficientes para viver à larga no México, cercados de mulheres, bebidas e luxo. Leio no JC a notícia dos avós fuzilados num distrito de Jaú, diante do neto, por R$ 1.500,00 levados pelo assassino. Vivemos ainda numa época onde predominam o egocentrismo, o hedonismo e consumismo. A inspiração parece vir de um antigo refrão de rock: “Se você não é quem queira ser, ao menos aparente ser o que não é”.

Na era das celebridades e das mediocridades, do glamour e da fraude, do espetáculo e da especulação, a aparência é tudo. “Tá de baixo-astral, toma Prozac; tá sem tesão, toma Viagra; tá sem dinheiro, então dá um tiro na cuca; de preferência em público, que o show não pode parar”. Como diz uma banda de música pop de sucesso, “We all live in a Barbie world”. Vivemos num mundo da boneca Barbie, cheio de aparências, onde a política se converteu em merchandising e onde a vida cultural é medida pelos índices de audiência da TV. Não admira, portanto, que em meio a essa euforia exibicionista haja surgido movimentos de resistência via internet (sempre) de incentivo a atos de subversão a qualquer produto comercial altamente visível – artigo produzido em massa, grandes jornais, programas de televisão, publicidade, etc. Irritados com o machismo em torno da boneca Barbie, um grupo de ativistas conseguiu adulterar o som embutido em uma centena de bonecas à venda em Nova York e na Califórnia. No lugar de ouvir frases tipicamente femininas da Barbie, as meninas que ganharam a boneca ouviram “Ataque! A vingança é minha”, entre outras frases pronunciadas pela voz grossa que acompanha o boneco-soldado Joe que é uma espécie de herói norte-americano. O caso foi citado como exemplo de “subversão criativa”.

Conseguir ludibriar os meios de comunicação, vistos como os maiores vilões dos tempos modernos, tem sido um grande prazer para esses “novos rebeldes”. A imprensa de Nova York foi convidada a noticiar um grande evento que ocorreria no dia 1° de abril: a coroação do Rei dos Tolos no Dia dos Tolos. A parada iria se realizar na Quinta Avenida, a mais famosa de Nova York. O evento, que obviamente não houve, contou com a cobertura do jornal “New York Post” e de várias emissoras locais. Os “novos rebeldes” enviaram press releases sobre o suposto evento pelo Correio e por fax a mais de 200 meios de comunicação. A intenção foi a de mostrar que a mídia é constantemente bombardeada por informações não-verdadeiras, de diferentes tipos de fontes, e não tem o hábito de checar essas informações antes de publicá-las. Isso é grave do ponto de vista técnico e ético.

Os jovens que se negam a ser “fashion” e detestam dar ênfase a produtos personalizados, adotaram a camiseta e o jeans, por mais que pareçam vulgares, simplórios e irrelevantes. A ascensão da camiseta, que os americanos chamam de T-shirt, deu-se após a guerra, adotada pela juventude por suas associações simbólicas com o proletariado. Ela se tornou, por assim dizer, no uniforme dos excluídos e dos rebeldes. Depois que James Dean a usou em “Juventude Transviada” passou a ser sinônimo de despojamento, informalidade e sensualidade. Incorporou enorme sentido simbólico. Até nisso as grifes tentaram penetrar produzindo suas versões personalizadas e caríssimas. Nunca funcionou. Os camelôs detonaram as etiquetas famosas com os produtos-piratas. Cada jovem ou cada grupo criou suas próprias versões, investidas de seus slogans e emblemas de irreverência. Marx deve estar rindo no túmulo. O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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