Terceiro longa-metragem de Tata Amaral, “Antônia” foi bem-recebido por crítica e platéia em sua primeira sessão pública, realizada no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Retrato de quatro cantoras da periferia de São Paulo, o filme tem “atuações arrebatadoras”, segundo a revista “Screen”, a mais imediata baliza para a imprensa internacional durante festivais. E recortes interessantes sobre a vida de suas protagonistas, que tentam formar um grupo de rap em meio aos problemas cotidianos.
A “Screen” ressalva, entretanto, que falta “profundidade” à obra de Tata Amaral, o que tornaria difícil sua comercialização no mercado internacional, ainda que venha embalado com o selo “dos mesmos realizadores de ‘Cidade de Deus’”. Na exibição em Toronto, na sexta-feira, o que se viu foi uma reação calorosa da platéia, na forma de risadas, aplausos e até alguns soluços. E justamente por conta do poder de fogo, em cena, de Leilah Moreno (Barbarah), Negra Li (Preta), Quelynah (Mayah) e Cindy (Lena), atrizes-cantoras cuja intimidade com a câmera e a trilha sonora são, também segundo a “Screen”, destaques do filme.
Numa das cenas mais aplaudidas, o quarteto canta “Killing Me Softly”, de Roberta Flack. Tata conta que a música foi incluída no filme porque era referência musical importante para as quatro cantoras, ainda que na regravação de Lauryn Hill. A empatia foi tanta que espectadores perguntaram se as cantoras haviam trabalhado juntas antes do filme. E se o que se viu na tela era uma história real.
“Esse é o melhor elogio que posso ter, porque eu sou uma pessoa de 45 anos, branca, de classe média, que fez um filme sobre jovens negras da periferia e conseguiu passar impressão de ser uma história verdadeira. É um elogio que essa dúvida paire”, disse Tata.
Visualmente “quente” como “Cidade de Deus”, “Antônia” também seguirá uma trajetória de migração para a TV, como o filme de Meirelles. O seriado “Antônia” terá o mesmo elenco e estreará na Globo em 17 de novembro - o filme, no entanto, só chegará aos cinemas brasileiros no início de 2007.
No sábado, foi a vez de Karim Aïnouz (“Madame Satã”) apresentar mais uma brasileira à platéia de Toronto. “O Céu de Suely”, que o diretor lançou no Festival de Veneza, conta a história de Hermila (Hermila Guedes), mãe solteira aos 22, que decide rifar “uma noite no Paraíso” para fugir de sua cidade, no Nordeste brasileiro.
Após a sessão, Aïnouz disse à platéia que o Brasil é “complicado no sentido ético e moral”, mas que a atitude de sua personagem tem mais a ver com confrontação e o sonho de uma vida melhor. “Tanto que ela não assalta, não rouba um banco, quando precisa de dinheiro. Ela usa o próprio corpo.”