Brasília - A família Vedoin envolveu ontem os nomes de José Serra, candidato tucano ao governo de São Paulo, e do prefeito de Piracicaba, Barjas Negri (PSDB), no escândalo da máfia dos sanguessugas. Sem apresentar provas diretas do envolvimento dos dois, os Vedoin disseram que eles participaram do esquema entre 2000 e 2002. No período, Serra foi ministro da Saúde e Barjas, seu secretário-executivo - e o sucedeu no cargo.
De acordo com a revista “IstoÉ”, Darci e seu filho Luiz Antônio Vedoin - apontados como líderes do esquema - disseram que pagaram propina ao empresário Abel Pereira, que segundo eles era um “operador” de Negri e Serra no Ministério da Saúde. “(Pereira) Falava que era para o ministro”, disse Luiz Antônio Vedoin.
As provas apresentadas pelos dois seriam cheques ao portador que teriam sido entregues a Abel Pereira, que atua na área construção civil em Piracicaba. Até então, nenhum integrante da família havia citado o envolvimento de Serra e Negri na série de depoimentos dados à Justiça Federal do Mato Grosso e à CPI dos Sanguessugas.
“A acusação veio acompanhada de documentação bancária. Temos que ver por que transferiu, a título de quê”, disse o procurador federal Mário Lúcio Avelar, que apura o caso em Cuiabá. “Mas é estranho que ele (Vedoin) venha ao Ministério Público e depois vá dar uma entrevista a uma revista.”
A primeira fase de apuração da CPI se ateve aos parlamentares. O eventual envolvimento de autoridades do Executivo só passou a ser apurado no mês passado. Há requerimentos para convocar os ex-ministros Serra e Humberto Costa. À “IstoÉ”, os dois relataram como teriam sido feitos os negócios. “Quando o Serra era ministro, as operações eram feitas pelos parlamentares. Quando o Barjas assumiu, Abel passou a ser o responsável pela liberação dos recursos, apesar de não possuir nenhum cargo naquela pasta”, disse Luiz Antônio.
Na entrevista, questionados se o ex-ministro Serra tinha conhecimento de que nos bastidores das cerimônias de entregas de ambulâncias havia um esquema de propinas, Luiz Antônio e Darci responderam, respectivamente: “Era nítido a todos” e “Posso te afirmar que as emendas, quando eram destinadas para esses eventos, saíam ainda mais rápido”. A revista diz ter tido acesso a 15 cheques da Klass, uma das empresas ligadas aos Vedoin. “Estão ao portador, mas foram entregues nas mãos dele (Abel)”, disse Darci.
A soma dos cheques seria R$ 601,2 mil. Darci e Luiz Antonio disseram que o acordo com Abel foi fechado em 2002, depois que Serra foi derrotado por Lula. “Eles haviam perdido a eleição e, em nome do ministro (que na época era Barjas Negri), o Abel nos procurou. Eu fui a São Paulo, conversei com ele no aeroporto e ele pediu um valor para poder liberar uma série de recursos. Queria 10% de tudo o que eu viesse a receber”, disse.
De acordo com os Vedoin, o acerto foi fechado por 6,5%. “Ele perguntou quais os Estados que eu queria que ele liberasse. Respondi que seria o Mato Grosso e Alagoas. Três dias depois o dinheiro estava na conta das prefeituras.” Darci disse: “Quando o Serra era ministro foi o melhor período. As coisas saíam muito rápido”.
CGU O ministro da Controladoria Geral da União, Jorge Hage, afirmou ontem que há tantos “indícios” contra o ex-ministro da Saúde José Serra (PSDB), candidato ao governo do Estado de São Paulo, quanto contra Humberto Costa, ex-ministro de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta a reeleição. Hage deixou claro, no entanto, que não faz juízo de valor, pois sua função não é julgar: “A credibilidade que têm as informações dele (o empresário Luiz Antônio Vedoin, líder da máfia dos sanguessugas) sobre José Serra deve ser a mesma credibilidade que se atribuiu a ele às informações dadas sobre autoridades e ministros do governo atual”, disse.
Em entrevista por telefone mais tarde, o ministro disse que as acusações veiculadas pela revista “IstoÉ” têm de ser levadas em conta, mas é preciso haver “cautela”.