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O choque está no ar

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 3 min

A bauruense Adriana Travalino Serrano e sua filha Thassiana Travalino Serrano já não suportam mais. Basta tentar saírem do carro e colocarem a mão nas portas e o susto é garantido: um choque amortece por poucos segundos o local do corpo atingido por uma descarga elétrica. “Eu e minha filha não agüentamos mais isso. É só tentarmos sair do carro que tomamos choque, algo que não era freqüente. Mas esse ano tornou-se um incômodo muito grande”, frisa.

O fato dos choques terem se intensificado em 2006, conforme relatado por Serrano, realmente procede. Isso porque esse ano, não só em Bauru mas também em todo o País, foram registrados os índices mais baixos de umidade do ar, fazendo com que o clima seco predominasse por vários dias. E são justamente essas condições do tempo as mais favoráveis à ocorrência dos choques nos carros.

“Trata-se de um fenômeno eletrostático provocado pela baixa umidade do ar, principalmente quando esta encontra-se abaixo dos 50%. Nos períodos secos a tendência de objetos, como os carros e até o corpo humano, acumular cargas elétricas é muito maior. Já em outras épocas, quando a umidade é mais alta, o fenômeno é raro, pois o ar em contato com o solo se encarrega naturalmente da descarga”, explica o físico José Humberto Dias da Silva, professor do câmpus/Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

O docente ressalta que os choques ocorrem quando encostamos em partes metálicas do veículo, que possui carga diferente daquela acumulada em nosso corpo. “É uma transferência de cargas. Cria-se uma corrente entre a pessoa e a superfície e, como muitos calçados possuem sola de borracha, um material isolante, o descarregamento ocorre quando vamos entrar ou sair do carro”, esclarece.

Mas o que faz os veículos e o corpo humano absorverem cargas elétricas? Basicamente, o responsável é o atrito com o ar ou materiais que potencializam tal tendência agravada nas épocas secas. “A eletricidade acumula-se no automóvel devido ao atrito com o vento e permanece nele por estar isolado pelos pneus. Ela fica em sua superfície externa como se estivesse flutuando”, ensina o professor.

Neste caso, continua o físico, a descarga ocorre quando o motorista toca o chão com os pés e a carroceria com as mãos. “Ele atua como um condutor e neutraliza a carga que estava presente no carro?”, compara. Já o corpo ganha eletricidade durante o “roça-roça” das roupas, principalmente as de lã e sintéticas, com o tecido dos bancos dos veículos. “É por isso que as mulheres, que têm a tendência de usarem mais esses tipos de vestimentas, costumam tomar mais choques que os homens. Até quando se penteia o cabelo as cargas se acumulam”, sustenta.

Silva salienta também que os choques nos veículos são pequenos apenas na duração, pois na voltagem são intensos. “Há descargas que provocam até faíscas e, neste caso, estimo estarem envolvidos cerca de 1.000 volts. Eles só não causam problemas porque a quantidade de carga acumulada é pequena”, conclui o físico.

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Prevenção

Para quem sofre muito com os choques nos veículos, o físico José Humberto Dias da Silva ensina uma maneira de minimizar o problema. “Isso vale para a hora de entrar no carro. A pessoa deve encostar as costas das mãos, em vez de aproximar as pontas dos dedos, primeiro na carroceria ou na maçaneta. Isto evita a faísca para as extremidades dos dedos, que neste caso atuam como se fossem uma espécie de pára-raios para as descargas estáticas. Encostando a parte posterior da mão ou o antebraço no veículo o efeito da descarga é menos concentrado e pode minimizar a dor ou incômodo”, orienta Silva.

Outro conselho do físico é evitar usar tecidos sintéticos nas roupas ou na cobertura dos bancos do veículo. “Os tecidos naturais em geral, como os de algodão, são menos compatíveis com o acúmulo e com a formação de cargas por fricção”, frisa o professor.

Já a bauruense Adriana Travalino Serrano, após pesquisar sobre o assunto, descobriu uma forma de prevenir-se das descargas na hora de sair do veículo. “Antes de colocar os dois pés no chão, toco em um metal. Isso está funcionando comigo e com a minha filha”, finaliza.

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