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Dossiê iria para campanha de Mercadante

Por Andréa Michael e Adriano Ceolin | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Brasília - Em depoimento à Polícia Federal (PF), o professor universitário Jorge Lorenzetti disse que o dossiê contra candidatos tucanos obtido com a família Vedoin no dia 14 seria entregue a Hamilton Lacerda, então coordenador-geral da campanha de Aloizio Mercadante (PT) ao governo de São Paulo. Para chegar à documentação, emissários do PT estiveram três vezes em Cuiabá (MT), com passagens pagas pelo caixa da campanha presidencial. Questionado várias vezes sobre a origem do R$ 1,75 milhão utilizado para comprar a documentação dos Vedoin, Lorenzetti repetiu que “não tem a menor idéia” de quem patrocinou a negociação.

O petista, amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também procurou isentar Ricardo Berzoini, destituído do comando da campanha de reeleição após ter seu nome envolvido no episódio. Ao longo do depoimento de três horas e meia, em Brasília, ele negou qualquer possibilidade de negociação financeira, mesmo diante das cobranças dos Vedoin para fornecer os documentos que “incriminariam” o candidato tucano ao governo de São Paulo, José Serra.

Ao delegado Diógenes Curado e para o procurador Mário Lúcio Avelar, Lorenzetti contou que escalou o advogado Gedimar Passos e o funcionário do Banco do Brasil Expedito Veloso, ambos trabalhando na campanha presidencial do PT, para ir a Cuiabá saber o que os Vedoin tinham a oferecer. O dossiê contra Serra custaria R$ 20 milhões. Segundo Lorenzetti, “após ouvir o relato (dos emissários), (ele) descartou completamente a hipótese de fazer pagamento em dinheiro pelas provas que envolveriam José Serra, de acordo com “orientação expressa’ dada pela coordenação da campanha”.

Diante dos boatos de que a PF poderia pedir a prisão de Lorenzetti, seu advogado, Aldo de Campos Costa, contestou: “Ele se apresentou voluntariamente para depor. Fez um depoimento contundente como testemunha, condição na qual deve permanecer durante todo esse processo”. Costa disse que “a PF está apurando outras vertentes” e que “haveria outros interesses em jogo, de outras pessoas, de outros órgãos”.

Berzoini

Segundo Lorenzetti, que é ex-analista de mídia e risco da campanha do PT à Presidência, Berzoini “não sabia da existência das provas, e só soube das mesmas pela imprensa após a prisão de Gedimar e Valdebran”. Eles foram detidos pela PF no dia 15, no hotel Ibis Congonhas, em São Paulo, com o R$ 1,75 milhão que seria usado para comprar o dossiê dos Vedoin.

Valdebran é o emissário que os Vedoin enviaram a São Paulo para receber o dinheiro e entregar um lote de documentos a Gedimar, o representante do PT. Um outro conjunto de documentos foi entregue por Darci e Luiz Antonio Vedoin aos petistas Expedito Veloso e Oswaldo Bargas, ex-secretário do Ministério do Trabalho, no dia 14.

Em Cuiabá, eles acompanharam uma entrevista dos Vedoin à revista “IstoÉ”, na qual afirmam que o empresário de Piracicaba Abel Pereira era o responsável por liberar emendas no Ministério da Saúde na gestão de Barjas Negri, braço direito de Serra quando ele estava na pasta. Lorenzetti afirmou também que “Abel Pereira teria oferecido, pela informação da família Vedoin, R$ 10 milhões”.

De fato, o empresário esteve em Cuiabá entre os dias 23 e 24 de agosto, quando um fotógrafo, contratado por Gedimar e Expedito Veloso, registrou sua saída do hotel Taiamã. Consta no depoimento que Lorenzetti conheceu Freud Godoy na campanha petista de 2002 e que teria mantido contato com ele em agosto deste ano para contratar um serviço de varredura de escutas ambiente e telefônica para o comitê de reeleição de Lula. Negou que Godoy tenha participado de qualquer conversa relativa ao dossiê.

Godoy foi afastado do cargo de assessor da Presidência após que ser citado por Gedimar como o mandante da negociação.

Na tarde de ontem, o delegado tomou os depoimentos de Veloso e Bargas. Até o momento, os depoimentos não haviam terminado.

Depósitos

Veloso entregou ontem à PF os documentos que recebeu dos Vedoin no dia da entrevista à “IstoÉ”. São registros de depósitos que teriam sido feitos em favor de prefeitos supostamente envolvidos em fraude a licitações, além de uma lista de 15 cheques do Banco do Brasil, no valor total de R$ 601.230,00, que teriam sido entregues pelos Vedoin a Abel Pereira.

Os cheques são da empresa Klass, que pertence aos Vedoin. Veloso disse que, segundo os Vedoin, os repasses a Pereira serviriam para pagamento de restos da campanha de Serra em 2002. As datas dos cheques vão de 30 de dezembro de 2002 a 5 de fevereiro de 2003.

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