Política

Abibia Monteiro: 95 anos de cidadania

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

Tente convencer Abibia Monteiro, 95 anos, que ela não precisa votar em 1 de outubro, porque o voto não é obrigatório para maiores de 70. Com certeza, ela vai falar sobre a necessidade de participar do processo eleitoral e influenciar na escolha dos representantes do povo. Aliás, essa participação é recorrente na vida de Bibi, como é conhecida, desde 1932, ano em que votou pela primeira vez.

Coincidentemente, foi neste ano em que as mulheres conquistaram o direito de votar, que antes era exclusividade dos homens. Bibi Monteiro conta que as mulheres ficaram entusiasmadas na época. “Nós finalmente podíamos participar do governo, da política”, lembra. De acordo com Bibi Monteiro, ela só deixou de votar durante a ditadura militar (1964-1985). Fora esse período, ela afirma que sempre fez questão de comparecer às urnas. “Eu sempre votei. Em todos os anos de eleição, nunca deixei de votar”, diz.

Para ela, o exercício do voto é mais do que uma obrigação, é uma forma de contribuir com os destinos do País, do Estado e do Município. Bibi afirma que todos os cidadãos deveriam encarar o voto como um direito, não como um dever, exercer esse direito. “É um momento que todos deveriam participar, principalmente os jovens, que devem pensar no futuro. E o voto é a forma de influenciar o que vai ser o futuro”, ressalta.

Engana-se, no entanto, quem pensa que a participação de Bibi Monteiro se resuma às palavras e ao voto. Aos 95 anos, ela ainda atua como voluntária para ajudar mulheres grávidas carentes a montar o enxoval de seus filhos. Isso sem contar os 25 anos em que trabalhou voluntariamente na Associação de Pais e Amigos do Excepcional (Apae), onde é muito querida até hoje.

Cidadania sempre

Nem mesmo os recentes escândalos envolvendo políticos desanimam Bibi Monteiro. Para ela, a situação pode ficar ainda pior se o brasileiro se omitir, achando que nada vai mudar. “Não pode se omitir, porque se você se omitir, será bem pior. Você não trabalhou para melhorar, ficou estagnado”, diz.

O recado de Bibi vai direto aos defensores do voto nulo. Para ela, anular o voto não melhora em nada a situação e ainda ajuda a eleger pessoas sem compromisso com a população.

O slogan “sou brasileiro e não desisto nunca” cai como uma luva em Bibi. Apesar das várias crises pelas quais o Brasil passou no campo político, ela nunca deixou de acreditar que o País pudesse melhorar. “A gente sempre tem esperança que apareça alguém que resolva para melhor, que queira trabalhar com sinceridade. E desde 1932 tem aparecido gente que tem essa vontade, trabalham e se dedicam fielmente a melhorar o nosso País”, ressalta. “Por isso eu sempre convoco a juventude a participar, a ajudar a decidir o futuro e trabalhar para melhorar o Brasil, sempre. Tem que participar sempre”, coloca.

1932

A participação de Bibi nas eleições de 1932 não se resumiu ao voto. Em Ubá, cidade onde morava na época, ela trabalhava como secretária assistente do secretário da Escola de Farmácia e Odontologia. Por esse motivo, a “senhorinha”, como era chamada, foi convidada a trabalhar na eleição. Ou seja, além de fazer parte de um momento histórico, que foi a primeira eleição com participação feminina no Brasil, Bibi também trabalhou como mesária.

Por causa de sua atividade profissional, Bibi afirma que não houve dificuldades para exercer o direito do voto. Pelo contrário, os cidadãos de Ubá ficavam maravilhados com a ousadia da moça, que fez curso de guarda-livros, profissão tipicamente masculina nos anos 1930, ao contrário da maioria das mulheres da época, que faziam a escola normal e seguiam carreira como professoras.

Essa ousadia, somada ao trabalho na Escola de Farmácia e Odontologia, renderam frutos favoráveis a Bibi Monteiro. “Quando foi permitida a eleição e me perguntaram se eu não queria trabalhar, me prontifiquei, porque minha família sempre foi atuante”, frisa. Bibi Monteiro lembra que todas suas amigas de Ubá foram votar em 1932, com sede de participação e com vontade para mudar os rumos do País. “Podíamos criar novas idéias com a política e de lá para cá eu continuo devotando a política”, salienta.

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Qualidade feminina

Mesmo com poucas mulheres se interessando em participar das eleições como candidatas, Abibia Monteiro faz questão de dizer que não falta combatividade às mulheres: pelo contrário, as poucas representantes femininas nos cargos eletivos costumam ter, de acordo com ela, muito mais qualidade que os homens.

Para ela, o que pode afastar as mulheres da disputa por cargos eletivos é a timidez, mas nem por isso as poucas mulheres que disputam eleições são menos lutadoras. “Nós temos várias candidatas e todas elas trabalham com energia e se expõem, às vezes mais do que deviam, para serem eleitas e trabalhar. Acho que política tem que ser para trabalhar pelo cidadão”, diz.

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