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Entrevista da semana: Por trás das lentes de Celso Melani

Thatiza Curuci
| Tempo de leitura: 8 min

Ele é tímido e introspectivo, mas sabe usar isso em seu benefício. Não é qualquer um que consegue ficar horas em frente a um objeto, procurando o melhor ângulo e a melhor luz. O fotógrafo Celso Melani tem na profissão o seu hobby e ao mesmo tempo o sustento da família.

Especialista em fotos de campanhas publicitárias e acumulando quase 25 anos de trabalho, que o tornaram referência em fotografia em Bauru e região, Melani conseguiu montar seu próprio estúdio e tem ajuda constante da mulher, Cristiane, que também é produtora de suas fotos.

Ele descobriu a fotografia quase que por acaso. Nasceu em Bento de Abreu (Interior de São Paulo) e mais tarde foi morar em Araçatuba. Veio para Bauru para cursar faculdade de desenho industrial. Durante o curso, foi descobrindo aos poucos a paixão pela fotografia, com ajuda dos professores que o incentivaram. Quando terminou o curso de designer, era definitivamente um fotógrafo.

O computador é grande aliado de Melani, além da máquina fotográfica. Em frente a ele, o fotógrafo passa horas retocando as fotos e transformando-as. Com paciência e determinação, ele consegue chegar quase à perfeição de cores, brilho e beleza.

O visual o encanta. Por isso, não tem cores preferidas e nem mesmo uma foto predileta. Costuma dizer que fica fascinado com as imagens a cada trabalho que realiza. Para ele, cada momento é único e não pode ser desperdiçado. E compara o fotógrafo a um caçador. “Se perder o momento, que pode durar um só segundo, perde-se a caça. É o mesmo com a fotografia. O fotógrafo precisa ficar atento a tudo, com a máquina em punho como se fosse uma arma”, explica.

Foi dentro do seu estúdio, um lugar tranqüilo e cheio de aparatos de imagem, que Melani conversou com a reportagem do Jornal da Cidade. Acostumado a tirar fotos, ele estranhou ao constatar que estava do outro lado da lente, sendo fotografado.

Jornal da Cidade - Como você descobriu a fotografia?

Celso Melani - Eu descobri a fotografia na faculdade. Vim a Bauru para fazer curso de desenho industrial e acabei descobrindo a fotografia por acaso. Antes disso, nem imaginava que ia ter essa vocação, tendência à foto. Eu tinha uma matéria de fotografia dentro do curso e partir daí foi amor à primeira vista. Tive incentivos dos professores e acabei virando monitor da matéria de fotografia. Depois, fui funcionário do setor de fotografia. Esse foi o início.

JC- Você esperava ser designer e acabou sendo fotógrafo?

Melani – Do design que eu tinha por convicção e é uma coisa que eu gosto, acabei encontrando dentro da fotografia um outro caminho. Acho que é uma maneira de realizar aquilo que eu gostava de transformar em desenho. JC – A foto, inclusive, não deixa de ser um desenho.

Melani – É. Todo o conceito do desenho, na sua concepção, como a criatividade, espontaneidade, composição, equilíbrio e formas, também faz uso na fotografia. Por isso, a fotografia está inserida dentro da arte. Uma faz uso do conceito do outro.

JC – Aproveitando que agora você está sendo fotografado pela reportagem do JC, como se sente?

Melani – Realmente é estranho (risos).

JC – Você é uma pessoa tímida, não é?

Melani – Bastante.

JC – Isso traz dificuldades ou te ajuda?

Melani – Eu tenho essa caraterística tímida, mas acredito que provavelmente isso determinou minha profissão. Pela minha timidez, optei por fazer determinados tipos de serviço. Por exemplo, o estúdio. Nele, posso trabalhar com fotos que eu possa ter controle e interagir mais com ela. Se você tem uma outra caraterística, provavelmente faria outro tipo de trabalho, mais solto. O comportamento interfere, é decisivo para escolher o melhor estilo de trabalho. No meu trabalho, sou bastante introspectivo e preciso refletir muito. Nesse sentido, faço uso da minha timidez. Na hora que estou trabalhando, sou até um pouco anti-social porque não consigo conversar muito.

JC – Na sua casa, com familiares e amigos, você também é tímido?

Melani – É difícil de eu conseguir responder isso (risos). Em casa, acho que tenho momentos em que não sou tímido, que descontraio mais. Quando começo a abusar um pouco mais da descontração, meus filhos dizem: “Pô, pai, chega”. Tenho que sentir uma receptividade para conseguir ficar mais espontâneo.

JC – Quais tipos de trabalho você gosta de fazer?

Malani - Estou no mercado há uns 25 anos. Então, consegui me manter nesta área porque tive facilidade de fazer novos estilos e atuar em várias áreas. Tenho essa facilidade. Um trabalho que é muito forte na minha vida é a publicidade. Ela envolve muitas coisas: posso fotografar pessoas, animais, prédios, produtos, etc. Você nunca sabe o que vem pela frente, é uma caixinha de surpresa. O que mais gosto na fotografia é de estar onde eu possa controlar a luz, o produto, ou a pessoa, ou seja, dirigir essa cena. É o diferencial no meu trabalho.

JC – Em casa, quando não está trabalhando, você gosta de fotografar? E o que faz nas horas vagas?

Melani – Hoje, estou sentindo o peso de talvez ter transformado aquilo que eu desejaria como hobby em uma profissão. Eu estou sem aquele hobby oficial. Adoro o que eu faço. Tem horas que fico um pouco desesperado porque tudo é para ontem, tenho que correr contra o tempo e sou cobrado pelo resultado. Tenho que ter uma eficiência grande em pouco tempo. Isso cria uma sensação angustiante. Nos momentos em que posso curtir mais, às vezes gosto de fazer aquela fotografia descompromissada, sem ter prazo para entrega. Aí, deixo fluir meu lado artístico, sem me preocupar com a técnica. Daí, relaxo e torna-se um prazer fotografar.

JC – Na entrada do seu estúdio, há algumas miniaturas de carros antigos. Você é colecionador?

Melani – Aquilo é uma paixão meio contida. Se tivesse melhor condição financeira, talvez eu seria um colecionador de verdade. Curto e acho bonito esse lado de manter determinados objetos em situações que, historicamente, representaram muito. Fazia isso desde moleque. Eu costumava guardar alguns carrinho que ganhava. Hoje, por questões de espaço físico, os carrinhos ocupam apenas um canto do estúdio. Se deixasse, ia tomar uma dimensão muito grande (risos)

JC – Quantos filhos você tem?

Melani – Tenho dois filhos. O Bruno, com 13 anos, e a Gabriela, com 10 anos.

JC – Sua esposa também trabalha com você, não é?

Melani – Sim, ela é minha sócia. Somos duplamente sócios, tanto casados quanto na empresa. Ela é meu braço direito tanto na parte organizacional quanto na produção. Ela participa efetivamente quando envolve fotos de pessoas, alimentos, por exemplo. A gente troca idéia sobre conceitos também. É fundamental a presença e a opinião dela no meu trabalho.

JC – E os filhos se interessam pela fotografia?

Melani – É um pouco cedo para dizer, mas vejo que minha filha demonstra naturalmente uma facilidade para a fotografia. Ela vê a mãe às vezes preparando um cenário de um objeto que vai ser fotografado e gosta de participar. Isso é legal. As vezes, ela pega a máquina e sai batendo umas fotos. Naturalmente, ela tem uma vocação. O Bruno já fica um pouco mais arredio à fotografia, mas é muito crítico, o que eu acho muito bom. Às vezes, quando ele está por perto, eu peço uma opinião. Ele tem um ponto de vista da meninada que está amadurecendo.

JC – Tem alguma fotografia que é sua preferida?

Melai - (pensa) Toda hora você tem um desafio. Acredito que a melhor fotografia, a imagem mais interessante, está no próximo trabalho. Ao longo dos anos, tem imagens bacanas que tiveram valores das suas épocas, mas cada uma dentro de um contexto. Não dá para eleger uma ou outra.

JC – Um fotógrafo, hoje, não consegue fugir da câmera digital. O que acha disso?

Melani – Utilizo digital há muito tempo. A fotografia digital hoje é uma realidade. Aquilo que se imaginava algo para o futuro já acontece há algum tempo. Fora do ambiente digital, começa-se a ter problemas como, por exemplo, a falta de fornecedores, mão-de-obra e materiais. Com o passar do tempo, a tecnologia vai nos surpreendendo mais. Ainda vai haver espaço para outras fotografias, mas ficam restringidas a um público pequeno para quem faz e quem compra.

JC – O que é preciso para ser um bom fotógrafo?

Melani – São tantas características, mas certamente uma delas é a observação. O fotógrafo precisa saber observar para, a partir daquele momento, acionar o obturador da câmera. Tem que usar o mesmo método da caça e encontrar o melhor momento para atirar. Fazendo essa analogia, a fotografia e a caça tem essa relação muito próxima. É como se estivesse com a arma em punho e atrás da sua presa. Às vezes, a arma tem um tiro só e você só pode usar aquele momento, que é decisivo.

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Perfil

Nome: Celso Luiz Melani

Idade: 45 anos

Cidade de nascimento: Bento de Abreu (SP)

Mulher: Cristiane Melani

Filhos: Bruno e Gabriela

Filme: Todos estilos, porque é apaixonado pela imagem

Livro: De encorajamento e amadurecimento

Cor: “Cada momento pede cores específicas”

Nota 10: “Àqueles que dominam a arte de ensinar a pescar”

Nota 0: “À obrigatoriedade do voto”

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