Bairros

Projeto buscava aliar mão-de-obra e hidrovia

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Parece até que foi ontem, podem dizer alguns, mas, na verdade, já se passaram quase 40 anos desde que o Distrito Industrial 1 foi instalado em Bauru, nas margens da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP 225), que liga a cidade a Pederneiras e Jaú.

Determinar uma data que sirva de marco inicial do local é tarefa complexa. Inúmeros pontos de referência poderiam ser adotados. A lei municipal número 905, por exemplo, que regula as doações de lotes no distrito, é de 15 de junho de 1961. Já a construção das primeiras fábricas data de 1969. As obras de infra-estrutura, por fim, são de 1970.

Independente da data adotada, o Distrito Industrial 1 é antigo, tendo sido o segundo local do gênero instalado no Estado de São Paulo – o primeiro é o de Presidente Prudente (município situado a 295 quilômetros de Bauru), construído em 1968.

A escolha do lugar para instalação do distrito não foi feita ao acaso. “O eixo Bauru-Jaú já era um importante pólo de desenvolvimento da região, e a localização facilitava a ligação com a hidrovia Tietê-Paraná, a partir de Pederneiras”, explica o arquiteto Jurandyr Bueno Filho, autor do projeto do Distrito Industrial 1.

Um outro fator importante para instalação da área nas margens da rodovia Bauru-Jaú foi a proximidade do local com o espaço onde estava sendo construído o Jardim Redentor, primeiro conjunto habitacional da cidade.

“A idéia era encurtar a distância entre residência e local de trabalho”, diz Bueno Filho, que por sinal também participou da elaboração da área industrial de Presidente Prudente. De fato, o Jardim Redentor chegou a ser um das áreas da cidade com maior concentração de pessoas empregadas no Distrito Industrial 1.

João Vander de Barros, que tem 78 anos e mora desde 1967 no bairro, foi um desses operários. Nascido em Pedra, no Estado de Pernambuco, ele veio a Bauru em 1948 para trabalhar na colheita de algodão. “Viajei 16 dias num caminhão pau-de-arara”, lembra.

Depois de um tempo dedicado a atividades agrícolas, Barros percebeu que a indústria poderia ser mais promissora. Tanto que acabou aprendendo o ofício de carpinteiro, profissão na qual chegou a aposentar-se, em 2003.

“Só na Ajax (fábrica de peças automotivas, que na época da inauguração do distrito era denominada Baterias Molina) trabalhei durante 32 anos e 22 dias”, conta ele. Quando Barros decidiu tornar-se operário, não encontrou grandes problemas para conseguir emprego nas fábricas que se instalavam no local.

“Na verdade era fácil pra danar, nem exame tinha. Você levava a carteira de trabalho e no outro dia já saía empregado”, recorda. Com efeito, nos primeiros anos o Distrito Industrial 1 passou por um momento de franca expansão.

Pedro Ferreira Nolasco, de 77 anos, é dono da Granoplast, uma das primeiras empresas instaladas na área. A fábrica, que na época fabricava embalagens plásticas, chegou a ter 135 funcionários trabalhando em três turnos diários, na metade dos anos 70.

“Mas a concorrência no ramo começou a crescer e a fabricação de embalagens deixou de ser um negócio lucrativo”, lamenta Nolasco, que teve de mudar de atividades para continuar atuando como industrial – hoje, contando com apenas 12 funcionários, ele produz equipamentos de tubos de PVC.

Mesmo assim, a rentabilidade do negócio não anda das mais invejáveis. “Do jeito como a empresa está hoje, dá somente para viver. Na verdade, é difícil encontrar alguma indústria que seja lucrativa hoje em dia”, pondera.

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Intelectual

Suado, mãos cheias de graxa, trajando jaleco de operário (profissão à qual se dedica desde 1975), Edson Teixeira Souza nem parece estar próximo de conseguir seu segundo diploma de nível superior. Versado nos mais diversos assuntos (política, jornalismo, economia), qualquer um percebe que apenas uma mente preconceituosa pode duvidar da capacidade intelectual de um mecânico.

Formado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Souza, de 44 anos, possui também diploma de tecnólogo na mesma área (mecânica), obtido na antiga Faculdade de Engenharia de Bauru.

Tantos anos atuando no distrito industrial fizeram com que as fábricas se transformassem em “seu habitat natural”. “A coisa mais gostosa nesse mundo”, diz ele apontando um pedaço de metal, “é poder ver isso virando uma mercadoria pronta”, completa.

Aos 48 anos de idade, Souza poderia estar acomodado com os conhecimentos adquiridos ao longo da vida. “Mas gosto muito de estudar, por isso resolvi fazer faculdade”, diz ele, referindo-se ao curso de direito que freqüenta na Universidade Paulista (Unip).

Não para ser advogado, claro. “Nem penso nisso. Mecânica corre nas minhas veias”, diz, mostrando o braço.

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