Saúde

Velhice maior e melhor

Por Antônio Gois | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

O idoso brasileiro vive hoje mais e melhor do que em 1998, mas a maior parte de sua terceira idade será vivida sem qualidade. É isso que mostram estudos apresentados durante o 15º Encontro Nacional de Estudos Populacionais, realizado na última semana em Caxambu (MG).

Um deles é dos pesquisadores Mirela Camargos, Roberto Rodrigues e Carla Machado (todos da Universidade Federal de Minas Gerais -UFMG) e mostra que, apesar de avanços registrados de 1998 a 2003, a maior parte da velhice do brasileiro ainda é vivida sem qualidade.

Para chegar a essa conclusão, eles calcularam a expectativa de vida de homens e mulheres que chegaram aos 60 anos de idade. Para homens, essa expectativa aumentou de 18,5 anos a mais para 19,1, enquanto entre mulheres a variação foi de 21,3 para 22,1. Isso não significa, porém, que esses idosos viverão todo esse período com qualidade de vida.

Para tentar descobrir qual a expectativa de vida saudável, os pesquisadores levaram em conta no cálculo as respostas que os próprios idosos deram ao IBGE em 1998 e 2003 sobre seu estado de saúde. Ao considerarem esse indicador, a expectativa de vida saudável dos homens ficou em 2003 em 8,4 anos a mais, e a das mulheres, em 8,9.

Nos dois casos, houve melhorias em comparação com 1998. Ainda assim, a expectativa para 2003 era a de que a maior parte da vida dos brasileiros a partir dos 60 anos seria vivida sem qualidade (44% do tempo para homens e 41% para mulheres). Os dados permitem concluir também que as mulheres, apesar de viverem mais, o fazem em piores condições de saúde do que os homens.

Camargos, Rodrigues e Machado explicam que o fato de o indicador ser subjetivo (é o idoso quem avalia para o IBGE sua condição de saúde) traz algumas limitações e vantagens. Uma das limitações é que isso torna mais difícil a comparação internacional, já que o método depende da condição que o próprio idoso tem de avaliar bem sua saúde. Por outro lado, ninguém melhor do que o próprio entrevistado para dizer se está se sentindo bem ou não.

A comparação do estudo com outras pesquisas apresentadas mostra também que a melhoria da condição de vida dos idosos não foi detectada só a partir dos indicadores subjetivos. A pesquisadora Maria Isabel Parahyba, do IBGE, apresentou estudo em que mostra que, no mesmo período analisado pelos colegas da UFMG, houve uma diminuição na proporção de idosos que declararam ter dificuldade para caminhar 100 metros.

O estudo também revela que aumentou a proporção de idosos que procuraram médicos de 1998 a 2003. Esse dado pode parecer contraditório, já que muitos pacientes só procuram o médico quando doentes, mas a chave para entender essa dicotomia está no trabalho de Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas (FGV), e Wagner Soares, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo o estudo, aumentou o percentual de idosos com planos de saúde. Isso indica que os brasileiros da terceira idade estão procurando mais os médicos porque têm mais acesso a eles, e não porque estão com saúde pior do que em 1998. O encontro em Caxambu discutiu os desafios do Brasil levando em conta que, pelas projeções do IBGE, a parcela da população com mais de 60 será cada vez mais numerosa.

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Vitalidade

“Estou muito bem comigo mesmo. Hoje, sou mais dono do meu corpo”, diz Frank Hollander, 75 anos. Há dois anos, ele começou a malhar e, desde então, vem sentindo mais vitalidade e disposição. “A atividade física faz bem até mesmo para o raciocínio, porque a circulação melhora no corpo todo, inclusive no cérebro”, explica.

Aposentado, o ex-diretor de produção caminha pela manhã, treina três ou quatro vezes por semana na academia do Sesc Consolação, em São Paulo, e traduz trabalhos técnicos relacionados à química. Suas únicas reclamações são “uma dorzinha aqui e outra ali, naturais da idade”, relacionadas principalmente às articulações.

“Mas, fortaleço os músculos nos equipamentos, para proteger as cartilagens. Nos ombros, a dor desapareceu sem remédios.” Apesar disso, evita pensar na saúde no futuro. “Só sei que estou melhor hoje do que há dois anos”, diz Hollander.

Aos 60 anos, Áurea Madalena Facioli da Silveira faz aulas de hidroginástica, condicionamento físico, ioga e coral e “viaja para todo o canto”. Tudo isso, junto das amigas, porque o marido não gosta da agitação. “O que não aproveitei na mocidade, faço agora”, conta.

A opção pelos exercícios aconteceu há 15 anos, quando o médico diagnosticou uma escoliose forte. “Foi aí que aprendi a nadar. A escoliose melhorou, eu não tomo remédio e nem sinto dor. Espero que minha saúde continue sempre assim.”

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