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É possível sobreviver a uma traição?

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Ser traído é uma experiência que ninguém gostaria de ter. Isto porque a traição, na maior parte dos casos, pode romper com o “contrato” de confiança estabelecido subjetivamente entre os casais, além de envolver respeito, auto-estima e outras questões que podem abalar os relacionamentos amorosos. Diante deste contexto, será que é possível perdoar uma traição? Como sobreviver à infidelidade?

Segundo especialistas em relações afetivas, não é fácil responder a estas perguntas. Além das razões socioculturais, estão em jogo aspectos familiares, morais, religiosos, econômicos e também motivos pessoais, que variam segundo os valores de cada indivíduo, aponta o psicólogo Sandro Caramaschi, professor do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e especialista em comunicação não verbal e etologia, ciência que estuda questões adaptativas e evolutivas das espécies. “Para algumas pessoas, a traição pode ser insuportável e, para outras, isto pode ser passível de negociação”, diz.

Perdoar uma traição, aponta Caramaschi, depende do nível de infidelidade e da forma como cada indivíduo reage a uma situação desse tipo. “Existem diversas possibilidades, desde a concepção cristã, que implica trair em pensamento, até a traição comportamental”, diz. E, além disto, é preciso lidar com as diferenças entre homens e mulheres, destaca ele. “O homem geralmente considera mais relevante a traição que envolve aspectos sexuais. E a mulher, quando está relacionada a aspectos do envolvimento emocional”, diz.

O psicólogo e professor do departamento de psicologia da Universidade de São Paulo (USP) Ailton Amélio tem opinião semelhante à de Caramaschi e observa que, se comparado a outras épocas, nos dias de hoje, a infidelidade não é tão grave na sociedade. “Antigamente haviam mortes, apedrejamentos e a pessoa poderia ser condenada à morte. Mas, geralmente, a pior punição era para a mulher”, observa ele, que é autor dos livros “Para Viver um Grande Amor” e “Mapa do Amor” (Editora Gente).

Atualmente, o traidor dificilmente é apedrejado na rua, mas isto não significa que as dores e o sofrimento da pessoa traída sejam percebidos de forma menos intensa. De acordo com Amélio, a questão mais relevante em casos de infidelidade é a perda da confiança e auto-estima. “A pessoa traída pode se sentir preterida e achar que o parceiro não gosta ou que ela não tem atributos tão bons, entre outros fatores que podem abalar o relacionamento”, detalha.

Foi exatamente isto que aconteceu com a universitária Maria*, 23 anos. Depois que ela descobriu a traição, não perdoou e terminou o namoro. “Na época me senti muito mal. Era como se eu não estivesse servindo para nada e outra pessoa precisou completar o espaço que estava faltando no namoro. Até hoje não perdoei porque a situação é horrível e ninguém merece isto”, diz.

O estudante Thiago*, 19 anos, tem outra experiência ligada à infidelidade. Apesar das dificuldades, ele perdoou a traição e resolveu dar mais uma chance à parceira. Mesmo assim, o relacionamento não deu certo. “Apesar de ter perdoado, acabei perdendo a confiança nela”, diz.

De acordo com Amélio, perdoar a infidelidade é difícil, mas não impossível. Esta decisão, porém, deve ser tomada de forma muito consciente para não causar ressentimentos e prejudicar a relação. “É preciso ter estrutura porque, em geral, todo relacionamento muda. E tudo depende da estrutura do casal.”

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Em processo de recuperação

A infidelidade motivou a atendente comercial Eduarda*, 18 anos, a terminar seu último relacionamento, que durou aproximadamente dois anos. Solteira há dois meses, ela conta que perdoou a traição do ex-namorado - situação que ocorreu não apenas uma, mas diversas vezes. Em uma delas, ele “ficou” com a prima de Eduarda. “Ele queria estar comigo e também com outras. Brigamos e ele disse que ou seria desta forma ou deveríamos terminar. Como gostava muito dele, aceitei este relacionamento aberto.”

Apesar disto, a atendente sofria muito quando via o ex com outras mulheres e, quando estava decidida a terminar tudo, ele lhe propôs um namoro sério. “Ele falou que iria mudar, eu acreditei, mas isto não aconteceu”, conta. Não raramente, revela ela, seu ex “sumia” ou não atendia suas ligações. “Além disto, os próprios amigos dele ‘tiravam sarro’, diziam que eu era tonta porque meu ex ficava com outras. Era uma situação humilhante”, diz.

Nesta época, sua auto-estima ficou muito abalada. “Eu achava que o problema era comigo, que tinha feito alguma coisa errada ou não dava atenção suficiente para ele, quando, na verdade, era o contrário”, conta. Mesmo sofrendo, ela terminou o namoro e decidiu seguir sua própria vida. Para isto, procura se distrair na companhia da irmã, freqüenta barzinhos, ouve música e bate-papo com as amigas.

Além disto, aposta em sua força interior para enfrentar toas as dificuldades. “Ainda tenho um sentimento por ele, mas não é amor. Apesar disto, não consigo ‘ficar’ com uma pessoa para esquecê-lo. Estou em processo de fortalecimento”, diz.

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