Filosofar é como respirar. Todos fazem isto. Desmitificando a idéia de que a filosofia se restringe aos pensadores, o professor e filósofo Éder de Haro Petrechen mostra em entrevista que esta área do conhecimento envolve indagações, reflexões e discussões sobre diferentes situações e a própria vida humana. Justamente por isto, ela é “praticada” cotidianamente, mesmo que os indivíduos não a percebam.
“A filosofia começa com o espanto e o questionamento. Primeiro as pessoas se espantam e, em seguida, a pergunta imediata é ‘por quê?’”, aponta Petrechen. Ele concedeu entrevista ao Jornal da Cidade durante a 3.ª Jornada de Filosofia, evento promovido recentemente pela Universidade do Sagrado Coração (USC), onde ministrou uma palestra e oficina voltadas ao ensino da ciência para o público infantil.
Acumulando quase três décadas de carreira, Petrechen é representante do Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças (CBFC) e defende o ensino da filosofia como uma das principais formas de humanização e desenvolvimento intelectual.
No bate-papo a seguir, o professor destaca estes e outros temas, entre eles os motivos que trouxeram a filosofia à tona na sociedade, a importância dela e dicas sobre como filosofar. Confira a seguir.
Jornal da Cidade - O que é filosofia?
Éder de Haro Petrechen – Em primeiro lugar é necessário explicar que o ser humano vive de coisas materiais, intelectuais e transcendentes. A ciência busca o funcionamento do mundo material e está relacionada à natureza, ao corpo humano, medicina, clima, meteorologia, oceanografia. A parte intelectual diz respeito ao pensamento humano, aquilo que o ser humano pensa a respeito da vida e de si próprio. E a parte transcendental está ligada à fé e à religião. O ser humano vive estas três áreas concomitantemente. Todos os indivíduos são, ao mesmo tempo, inteligíveis, sensíveis e transcendentes. A filosofia se dedica mais à área do pensamento. Ela é uma reflexão responsável por explicar o mundo e as coisas. É o concatenamento de princípios e idéias que, logicamente organizados, vão compor um conjunto em que não se encontra nenhuma contradição.
JC - - Quais são as principais correntes filosóficas? Petrechen – Existem muitas correntes filosóficas devido à liberdade de expressão que o ser humano está experimentado. Existem as correntes da fenomenologia, as existencialistas e algumas idéias antropológicas do marxismo.
JC - - Por que, de repente a filosofia veio à tona por meio de programas na TV, filmes, livros, cafés filosóficos e também na escola, sendo incluída como disciplina obrigatória no ensino médio? Petrechen – Pelo simples fato de que as pessoas estão vivendo mais a parte material e descuidando-se de uma reflexão sobre sua própria prática. Que sentido tem tudo isto? Elas estão sendo mais felizes dentro de uma vida de consumo ou existem outros meios e perspectivas? A filosofia permeia todos os campos da existência: quem é o ser humano, relacionada à antropologia; qual é a melhor conduta dele na sociedade, ligada à moral e à ética; e qual é a interferência de Deus na vida do homem, ligada à filosofia da religião. Na vivência globalizada, o indivíduo lida com o imediatismo constante e agora está chegando o momento em que ele deve realmente parar e rever a validade de sua vida. Cada fato inédito na humanidade exige novas reflexões.
JC - – Por quê? Petrechen – Vou citar alguns exemplos: de repente o homem percebeu que tinha artefatos suficientes para banir o ser humano da Terra, de seu próprio habitat. Mas para que serviu tudo isto? Para que adiantou tanto dinheiro, trabalho e conhecimentos científicos? Outro exemplo: na questão da educação, a Internet tem inúmeros dados, mas o que as pessoas irão fazer com todas estas informações? É preciso refletir sobre isto e sobre o próprio valor do ser humano. Por isto houve o renascimento e a revalorização do filosofar. E de maneira popular, mas não popularesca. Todos devem fazer esta reflexão. Mas, para isto, há a necessidade de se ensinar como se faz, o que justifica a volta da filosofia para a escola. Não existe algo mais humano do que a educação porque educar é humanizar. E o que é humanizar? É tornar gente o ‘filhotinho’ do mamífero Homo sapiens.
JC - - Todos podem filosofar? Petrechen – Todos filosofam. Mesmo que a pessoa não queira está filosofando. Ela pode não estar fazendo filosofia, mas está refletindo. É como respirar, todos fazem isto. Só que muitas vezes a pessoa reflete sobre um significado com um determinado sentido, atribui outros princípios a ele e pode criar princípios contraditórios, os quais são responsáveis pelos disparates, quando, por exemplo, ela pensa de um jeito e age de outro. Não há coerência em sua vida. Filosofar é inerente ao ser humano, mas muitas vezes ele não reflete de uma maneira mais densa. Por exemplo, um dos fatos que mais leva o indivíduo a filosofar é a morte. É nesta situação que ele pára para ver o sentido das coisas, da pessoa que morreu e reflete sobre sua própria vida.
JC - – Mas como as pessoas filosofam? Petrechen – Com o simples fato de questionarem. A filosofia começa com o espanto e o questionamento. Primeiro as pessoas se espantam e, em seguida, a pergunta imediata é “Por quê?” E quando as pessoas se envolvem neste espanto e questionamento começam a filosofar. Mas, para que isto ocorra, é necessário afastar as idéias religiosas e mitológicas – o místico e o mítico – e ficar estritamente com o aspecto racional. Vou citar duas frases como exemplo. Quando se diz: “Nós todos somos iguais e temos o mesmo valor?” e a outra: “Está na Bíblia. Jesus disse que não existe escravo ou senhor, grego ou judeu e todos são igualmente filhos de Deus.” Os princípios são próximos, mas um tem fundamento religioso e o outro é filosófico. Para filosofar o indivíduo precisa refletir, mas de uma forma estritamente racional.
JC - – O ser humano filosofa sem saber? De que forma? Petrechen – Sim, quando as pessoas atribuem algum sentido e analisam se determinada ação está correta ou não. Quando se valora algumas ações ou produtos humanos, a pessoa já está escolhendo alguns valores, mesmo que ela não perceba. Por exemplo, um indivíduo que prefere ter um carro do que comprar um livro ou outra pessoa que tem como opinião que fazer uma faculdade é menos importante do que ter um trabalho que não exija tantos conhecimentos mas que ela ganhe mais. Ou ainda em relação à educação dos filhos, quando os pais decidem sobre quais atitudes irão tomar diante deles. Sem querer o indivíduo já está elegendo alguns princípios.
JC - - O que a filosofia altera no pensamento das pessoas? Petrechen – Quando o indivíduo percebe que existem outras maneiras de ver o mesmo objeto, ato ou fato, amplia sua intelectualidade. É uma questão de ponto de vista. A pessoa tem uma opinião, mas ao se deparar com outros pontos de vista diferentes ela pode não aceitá-los, mas considerá-los. E com isto ela percebe que existem outras maneiras de se encarar as coisas e de analisar as situações. Em uma classe, por exemplo, o aluno sentado vê a nuca de outros colegas e o professor, que está na frente, vê o rosto de todo mundo. A situação é esta porque cada um tem lugar, mas isto não impede o aluno de se levantar e dar uma volta na sala para ver como os outros o estão vendo. O esforço intelectual de analisar como os outros estão analisando já é filosófico porque o indivíduo vai se deparar com várias maneiras diferentes de encarar o mesmo fato ou situação. Então todos filosofam, mas se apegam ao seu próprio ponto de vista. As aulas de filosofia nas escolas propõem que desde cedo as crianças ouçam o que estão dizendo para ampliarem a intelectualidade.
JC - - Em gerações passadas, a filosofia era disciplina nas escolas. Na época da ditadura militar ela foi tirada do programa de ensino. E agora volta à sala de aula. Quais são os reflexos destas mudanças pedagógicas no aprendizado? Petrechen – Depende de como se der a filosofia no aprendizado. Uma boa alternativa é apresentar temas que partam da vivência dos alunos, trabalhando cada um deles com os conceitos, passo a passo, para que possam digerir tudo isto, senão vai ser algo que não lhes diz respeito. Ao invés de jogar uma concepção ou definição, o ideal é mostrar ao jovem cada um dos elementos necessários para a reflexão, fazendo com que ele experimente cada parte do conceito para entender o todo. Descartes disse: “Penso, logo existo”, mas o que isto significa? Se pararmos para pensar, não é que o indivíduo existindo de vez em quando ele pensa, mas por pensar é que o ser humano existe; então só existe quem pensa. Desde cedo devemos nos preocupar com as questões reflexivas sobre a existência humana. Daí a necessidade das crianças terem a liberdade de pensar, expressar e ouvir o pensamento dos outros para poder ampliar sua própria bagagem intelectual.
JC - - Como ensinar filosofia para as crianças? Petrechen – Tudo o que a criança perguntar deve ser respondido e acompanhado do “por que”. O método de ensino deve ser supervisionado pelos professores e os pais, tendo como base a acolhida e o respeito ao seu questionamento intelectual e se fazer o máximo possível para responder. Há toda uma metodologia para que isto aconteça nas escolas, mas de qualquer maneira ela deve estar amparada na contribuição dos próprios professores e dos pais.
JC - – O senhor disse que os pais e a escola podem, desde cedo, estimular as crianças a filosofar. De que forma? A partir de que idade isto ocorre? Petrechen – Existem fases em que as crianças questionam mais. O bebê, por exemplo, não está filosofando, mas está captando o mundo, como ele é oferecido e apresentado a ele. Mais tarde, as crianças passam a questionar porque começam a fazer as ligações intelectuais em sua mente. Se a criança desde cedo vê que seu questionamento é acolhido, vai começar a pensar mais, inclusive nas conseqüências e pode se tornar intelectualmente mais saudável. Mas é preciso lembrar que a filosofia não é remédio para todos os males. Ela nos acompanha do nascimento até a morte. Após a morte entra a religião, não cabe à filosofia responder se existe outra vida. A filosofia é uma natureza estritamente humana, com respostas racionais.