Polícia

Caminhão desce avenida sem motorista

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 4 min

“Escreve que era um caminhão fantasma”. Com esta frase, um pedestre que acompanhou, ontem, toda a saga do Mercedes Benz azul, placas KCZ 1658, de Santa Cruz do Rio Pardo, resumiu a cena - digna de Hollywood - vista pelos pedestres e moradores das quadras 9, 10 e 11 da avenida Cruzeiro do Sul.

Por volta das 13h20, Agnaldo Cristiano Bueno, 31 anos, estacionou seu caminhão-tanque em frente a uma casa lotérica, na quadra 11 da Cruzeiro do Sul, onde antigamente funcionava um supermercado. Ele havia acabado de carregar o veículo com 15 mil litros de gasolina em uma distribuidora de combustíveis próxima dali, na avenida Rodrigues Alves.

Sem motivo aparente, o homem saiu correndo de dentro da lotérica. Os funcionários da loja e pessoas que estavam numa banca de jornal próxima ficaram sem entender a reação do rapaz. “Vi quando o moço saiu correndo, coitado. Ele me falou: moça, você viu o caminhão?”, relembra uma testemunha, que estava na banca de jornais e não percebeu a movimentação da carreta que há alguns segundos estava estacionada atrás do estabelecimento.

Quando Bueno se deu conta do que havia acontecido, já era tarde. Sua carreta estava longe dali. Como na altura da quadra 11 a avenida começa a se tornar um declive, o caminhão, por falha humana ou mecânica, iniciou sozinho a descida da Cruzeiro do Sul, rumo à rodovia Marechal Rondon.

O percurso percorrido pelo “caminhão fantasma” foi de cerca de 200 metros. Na quadra 10 o declive se acentua, o veículo pega certa velocidade e, como devia estar desalinhado, começa a invadir a pista contrária, da esquerda.

“Ele tirou fina do meu caminhão. Deu medo ver a carreta descendo sozinha. Por Deus não aconteceu nenhuma tragédia”, afirma Marcos Pereira, dono de uma oficina auto-elétrica da quadra 10.

Na confluência da Cruzeiro do Sul (quadra 9) com a rua Alagoas, o veículo subiu na calçada e passou entre uma árvore, próxima a avenida, e o muro de uma casa situada na esquina. Ao bater a roda direita na árvore, o pneu do caminhão estourou, modificando sua trajetória.

Numa manobra de suma perícia, a carreta atravessou a avenida, bateu de frente no muro de um ferro-velho e, apoiada por uma pilha de entulho, parou, obstruindo a pista em direção à Marechal Rondon.

“Você contando, ninguém acredita. Foi coisa de cinema”, conta o estudante Armando Pazini, morador da quadra 10, que estava no portão no momento dos fatos e ajudou a sinalizar o trânsito.

Por sorte, o combustível inflamável não vazou e nenhum pedestre ficou ferido.

Num primeiro momento, acreditava-se que se tratava de um roubo, até mesmo o helicóptero Águia, da polícia, foi acionado para capturar os supostos assaltantes.

Várias versões

O motorista deu várias versões para o caso. Na primeira, depois de ter carregado o caminhão e saído com destino a Bariri, ele teria parado num semáforo da Rodrigues Alves, onde dois indivíduos armados o abordaram. Cada um teria ficado pendurado nas portas da carreta, que estavam trancadas. Na Cruzeiro do Sul, Bueno teria aberto a porta com a intenção de derrubar o ladrão, que o segurou. Os dois teriam caído no chão, deixando o veículo sem piloto.

Armando Pazini e outras testemunhas que presenciaram a cena afirmaram não ter visto nenhum assaltante ou luta corporal.

Na segunda versão, Bueno afirmou ter sido surpreendido e parado na casa lotérica a pedido de um dos assaltantes, que o acompanhou até o estabelecimento. No intervalo de tempo, o caminhão teria trafegado sozinho pela avenida, e os ladrões fugido.

Na casa lotérica, os funcionários afirmaram que o motorista estava tranqüilo e não aparentava estar sendo vítima de assalto. “Ele pagou algumas contas e comprou um bolão”, afirmou uma delas. Testemunhas da banca de jornal em frente ao estabelecimento também afirmaram não ter percebido nenhuma movimentação estranha.

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A verdade

Conduzido à delegacia, Agnaldo Cristiano Bueno finalmente confessou que não se tratava de um roubo. “Quando chegamos ao local, percebemos que as versões eram contraditórias. Ouvimos diversas testemunhas e concluímos que a história não era a que ele realmente havia contado. Depois ele confessou que não existiu tentativa de assalto”, afirma Dinair José da Silva, delegado adjunto do 4º Distrito Policial.

Bueno foi enquadrado no artigo 340 do Código Penal por comunicar, falsamente, um crime a autoridade policial. Se condenado, a pena pode chegar a seis meses de detenção. Ele poderá ainda responder por danos materiais e ser obrigado a pagar o muro e a calçada danificada durante o percurso do veículo desgovernado.

A polícia ainda irá ouvir mais testemunhas e observar o laudo da perícia técnica, que determinará se a falha foi humana ou mecânica. Caso seja comprovado que ele colocou a população em risco, poderá responder por outro crime.

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