“Eller” poderia ter sido somente uma noite especial em algum dos bares e casas noturnas onde o trio Monte de Bossa se apresenta, talvez com alguns convidados para dar charme. Porém a aposta foi grande e a coragem também. No palco do Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves, anteontem à noite, o que se viu não foi somente uma homenagem a uma das maiores intérpretes da MPB. Foi um emocionante espetáculo musical que jogou nova luz nas canções que Cássia Eller bradou.
Ensaiando há cinco meses para o projeto, os músicos João Paulo Biano (voz, violão e percussão), Leandro Tripodi (guitarra) e André Fonseca (violões), do Monte de Bossa, Ronaldo Diegoli (teclado), da banda Amsterdam, Marcelo Miranda (baixo), Paulinho (bateria e percussão) e Adílio (cavaquinho) derrubaram qualquer prenúncio de dúvida ou pieguice logo na primeira música do repertório.
Ao escolher “Malandragem” (Cazuza/Frejat) para abrir o show, eles corriam o risco de cair em homenagem aos hits populares – e às vezes menos adorados pelos fãs – da cantora. Mas a mise-en-scène com o clipe da música projetado no palco seguido pela entrada vibrante da banda foi justificado quando João Paulo começou a cantar o segundo verso. Se havia dúvida de que o vocalista poderia mais que homenagear Cássia, foi dirimida ali mesmo, consagrando-o como uma das melhores novas vozes da cidade.
“Malandragem” fora do caminho e os músicos, seguros e aparentemente descontraídos, começaram a desfiar as canções escolhidas, seguindo a cronologia da gravação ou inclusão em repertórios de shows. Foi prazeroso ouvir “Socorro” (Arnaldo Antunes/Alice Ruiz), “Na Cadência do Samba” (Ataulfo Alves/Paulo Gesta) e “Por Enquanto” (Renato Russo), que seguiu a delicadeza do arranjo original e foi cantada pelo público presente com toda a emoção que a letra carrega.
Na seqüência, os músicos recuperaram “Palavras Ao Vento” (Marisa Monte e Moraes Moreira), “Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você)” (Nando Reis), “Mapa do Meu Nada” (Carlinhos Brown), “Gatas Extraordinárias” (Caetano Veloso), “All Star” (Nando Reis) e “Eu Queria Ser Cássia Eller” (Péricles Cavalcante). A última, menos conhecida, ganhou o público com uma projeção bem-humorada no palco.
A cantora e percussionista Lan Lan acompanhou os bauruenses na terceira parte do show, dedicado às canções registradas no “Acústico MTV”. Além de tocar no bloco que incluiu “E.T.C.” (Marisa Monte, Brown e Nando Reis), “1.º de Julho” (Renato Russo), “Partido Alto” (Chico Buarque) e “Nós” (Tião Carvalho) – com destaque para a percussão -, ela ainda dividiu os vocais com João Paulo em “Vá Morar com o Diabo” (Riachão).
Sem querer ofuscar a presença da convidada baiana, que acompanhou Cássia desde as gravações de “Veneno Antimonotonia”, Lan Lan foi as cerejas sobre camadas de homenagens, reverências e recriações dos músicos de Bauru em um espetáculo delicioso sem ser saudosista ou doloroso pela morte precoce da cantora. Problemas no som e no timing das projeções no palco não ofuscaram o caráter profissional e seguro do show.
A proposta dos idealizadores é levar “Eller” para outros palcos – e o espetáculo não se segura apenas em teatros, pode ser tranqüilamente apresentado para públicos mais amplos. João Paulo, Ronaldo, Leandro, André, Marcelo, Paulinho e Adílio, sem dúvida, agregaram um marco a suas carreiras. Resta torcer para que mais pessoas se rendam à celebração de uma cantora que passeou por todos os campos da música brasileira e nunca deixou de ser o que era. Vida longa a “Eller”.