Na era da imagem, quem não quer estar bonito? Olhar-se no espelho e conferir uma silhueta esbelta é desejo número um de milhares de pessoas. A vaidade, porém, pode ser tanto uma aliada quanto inimiga da saúde e auto-estima. Tudo depende do modo de se lidar com ela. Em muitos casos, a busca incessante pela beleza resulta em transtornos ligados à auto-imagem, como anorexia e bulimia, além da vigorexia e disformia corporal. Cada vez mais freqüente, estas patologias podem influenciar o comportamento e trazer sérias conseqüências para o indivíduo. Justamente por isto, o tema têm preocupado a sociedade e especialistas no mundo todo.
Buscando evitar o conceito de beleza ligado à extrema magreza, os organizadores da Semana de Moda de Madri, realizada recentemente, não aceitaram modelos excessivamente magras nas passarelas. Na TV, as novelas globais “Cobras e Lagartos” e “Páginas da Vida” têm discutido os valores estéticos ligados ao culto do corpo e à magreza, destacando personagens que sofrem com transtornos alimentares. No primeiro folhetim, a chef Julia, interpretada pela atriz Luiza Mariani, teve anorexia nervosa, patologia caracterizada pela reduzida ingestão de alimentos, perda de peso e temor mórbido da obesidade. Já “Páginas...” aborda a bulimia nervosa, em que a pessoa pode ter um ataque de compulsão alimentar e depois vomitar ou outros métodos para “se livrar” da comida. Na trama, a adolescente Giselle (vivida pela atriz Pérola Faria) sofre deste transtorno.
São muitas as causas dos transtornos alimentares, explica a psicóloga Marilene Krom. Segundo ela, uma das principais é a pressão cultural, juntamente com fatores biológicos, psicológicos e familiares, que geram uma preocupação excessiva com o corpo e alterações comportamentais. A obsessão pela magreza é mais comum na adolescência, destaca. “Nesta fase a personalidade ainda não está plenamente configurada e os jovens se sentem obrigados a ter corpos magros, ainda que para tal sacrifiquem sua saúde e bem-estar.”
As doenças da auto-imagem também recebem muita influência da mídia, que valoriza o corpo magro como ideal máximo de beleza, aponta Marcela Vendramini Morato Velosa, psicóloga e professora de publicidade especializada em psicologia do consumo. “Uma das formas de aprendizagem de consumo é a observação e imitação. As pessoas se espelham em modelos de beleza, que geralmente são magérrimos. A abertura da novela ‘Belíssima’, por exemplo, trazia uma modelo com biotipo doente.”
A exemplo da novela, o culto ao corpo também é estimulado pela moda. Para satisfazer as compradoras, que não medem esforços para afinar a silhueta, a indústria do vestuário americano diminuiu ainda mais a numeração de suas roupas. Agora, além do tamanho 0 - no Brasil equivalente ao manequim 36 - há o tamanho 00, o qual corresponde ao 34.
Essa numeração é usada por celebridades com aparência anoréxica. Entre elas, a ex-spice girl Victoria Beckham, que tem 44 quilos distribuídos em 1,70 metro de altura, e a atriz Nicole Richie, atualmente com 42 quilos. As duas famosas se transformaram em ídolos de várias comunidades do Orkut (site de relacionamentos da Internet) que não classificam a anorexia e a bulimia como patologias, mas um estilo de vida.
Segundo MarileneKrom, que estuda a banalização dos transtornos alimentares na Internet, além da obsessão pela magreza, pessoas que sofrem de bulimia e anorexia têm uma relação doentia com a comida. “Eles distorcem a auto-imagem a tal ponto que se sentem gordas mesmo estando com 38 quilos, por exemplo”, comenta. O resultado, aponta ela, é a paulatina deterioração física e mental, que começa com sintomas leves, como a queda de cabelos, até complicações cardiovasculares, renais e endócrinas graves, que podem levar à morte.
Os portadores dos transtornos ligados à auto-imagem costumam negar a existência do problema. Segundo especialistas, o assunto é considerado um grande tabu entre pacientes, familiares e na sociedade, o que pôde ser comprovado pela equipe de reportagem. Durante uma semana, entramos em contato com diversas clínicas e algumas pessoas que já passaram pelo problema, mas mesmo preservando a identidade ninguém aceitou conceder entrevista.