Ser

Bálsamo diário

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 7 min

Acordar, tomar banho, preparar o café, levar os filhos à escola, ir para o trabalho, voltar para a casa e dormir são ações que fazem parte do cotidiano de muitas pessoas. Não é novidade apontar que, independente da idade ou classe social, todos seguem uma rotina diária, que inclui atividades e comportamentos previsíveis e programados. Também não é novidade dizer que, além da rotina, todos os indivíduos têm um “calendário coletivo”, composto por datas comemorativas, eventos ou solenidades cívicas, como 7 de Setembro, Natal e início da primavera.

Mas poucos sabem – ou param para pensar – sobre a importância da rotina e dos rituais. De acordo com a psicanalista e cientista social Anna Veronica Mautner, ter horários fixos e comemorar os eventos coletivos dá uma sensação de segurança e permite que o ser humano encare suas incertezas. Para ela, as celebrações e o cotidiano são uma confirmação das identidades individual e coletiva e são fundamentais para a evolução da humanidade. “A ausência de rotina gera personalidades inseguras porque as pessoas são seres vivos que precisam ter segurança. A rotina e as comemorações são uma garantia do dia de amanhã”, observa. Por isto, destaca ela, a rotina é fundamental para a educação e o desenvolvimento infantil e cabe aos pais estabelecê-la aos filhos.

Estes e outros assuntos foram tema da entrevista concedida por Mautner ao Jornal da Cidade. A psicanalista, que é membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise e autora das obras “Cotidiano nas Entrelinhas” (editora Ágora) e “Crônicas Científicas” (editora Escuta), é famosa por suas crônicas e reflexões sobre a sociedade e o comportamento humano. Confira os melhores trechos a seguir.

Jornal da Cidade - O que é rotina?

Anna Verônica Mautner – É a repetição de um ato, um pensamento, comportamentos e momentos previsíveis e previstos. Por exemplo: a pessoa toma café todos os dias de manhã, toma banho à noite, faz lição à tarde e ginástica três vezes por semana. Isto é rotina.

JC - Qual é a importância da rotina no dia-a-dia?

Mautner – Nós somos seres vivos conscientes de que vamos morrer. Então a capacidade de prever tem uma importância muito grande para nossa sobrevivência, enquanto espécie, grupo ou indivíduo. O ser humano tem que evitar, postergar e se esquivar dos perigos para controlar, na medida do possível, a chegada deste evento inteiramente previsível, que é a morte. O indivíduo nasce e morre. E a rotina é como se fosse um bálsamo que permite à pessoa olhar adiante e prever seu pequeno futuro.

JC – Dê um exemplo.

Mautner - Por exemplo, hoje é dia 23 e há tempos sabemos que dia 23 é o a data de início da primavera. As pessoas sabem que no dia 21 de dezembro começa o horário de verão; que dia 25 de dezembro é Natal e que amanhã de manhã elas irão acordar, escovar os dentes e fazer supermercado porque esta é uma rotina à qual elas se impõem. Sabem também que à noite elas trocam de roupa para dormir. Isto é um hábito da nossa cultura. Então o indivíduo tem todas estas coisas previstas, mas não tem como prever a hora de sua morte, o momento de sua doença e o ritmo de sua decadência física. A pessoa sabe que, se amanhã pela manhã ela estiver viva, vai escovar os dentes. Mas esteja ela viva ou não, no dia 21 de dezembro se iniciará o verão no hemisfério sul. E no hemisfério norte, será outono. Então estas coisas dão a segurança que permite ao ser humano encarar suas incertezas. É como um bálsamo, uma aspirina da vida.

JC - Qual a diferença entre rotina e ritual?

Mautner – A rotina é aquilo que as pessoas fazem comumente, freqüentemente, efetivamente e praticamente todos os dias ou todas as semanas. O rito central e mais aceito no Ocidente é a Bíblia e, de acordo com Ela, Deus fez a luz, o mar e, o no sétimo dia, descansou. Os cristãos descansam no domingo, os judeus no sábado e os islâmicos na sexta-feira. E apesar dos dias serem diferentes, todos eles têm este dia de descanso. Isto está na Bíblia, que é o nosso rito central. Todos os povos têm festas de colheita e festas de final de ano porque é uma outra forma de bálsamo para a imprevisibilidade enquanto seres vivos. Enquanto indivíduo, a pessoa sabe a hora que vai escovar os dentes e se deitar, isto é sua rotina. Enquanto família, ela também tem sua pequena rotina. E enquanto brasileira, ela tem o 7 de Setembro, o 15 de Novembro, o Hino Nacional, e o momento de congraçar junto com outros brasileiros. Todos os brasileiros, no dia 7 de Setembro, comemoram, em silêncio ou com alarde, o Dia da Independência. E quando se fala em celebração e comemoração, estamos falando de grandes grupos e festas previsíveis coletivas. A rotina é individual. E a comemoração é coletiva. É muito importante que, sistematicamente, as pessoas façam uma comunhão, seja de brasileiros, paulistas, palmeirenses ou de familiares.

JC - E qual é a importância dos rituais?

Mautner – A importância dos rituais é o congraçamento e o rememorar a descendência humana. Por exemplo, toda vez que nasce uma criança, se ela for católica será batizada ou se for judia será circuncidada. Todos os grupos têm as suas festas e as pessoas têm certeza de que todos os outros estão fazendo as mesmas coisas. É uma coisa que ocorre de forma uníssona. Todas as pessoas sabem que no Natal as crianças ganham presentes. Todos sabem que, na família, existem e se comemoram os aniversários. O Natal é de uma cultura, não é de um país. E isto é muito importante porque as pessoas esperam a comemoração, sabem que ela virá e sabem que neste dia todas elas se unirão.

JC – Então devemos comemorar sempre os feriados, datas religiosas ou solenidades cívicas? Por quê?

Mautner – Se quisermos que o povo, o grupo e a família tenham saúde mental é preciso dar este bálsamo e a certeza que o dia de amanhã virá.

JC - Como estas datas interferem na questão da coletividade e do indivíduo?

Mautner – Estas datas são a consagração da coletividade. As pessoas são um coletivo porque são brasileiras. O dia 7 de Setembro representa a mesma coisa para todos. Às vezes, porém, podem haver conflitos. Por exemplo, dia 1 de outubro é um domingo importante para os judeus, quando eles não podem fazer nada porque têm que jejuar. O calendário judeu é regido pela Lua e o nosso é pelo Sol. E neste ano coincidiu que o 1 de outubro é o dia da eleição. E os judeus recorreram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que eles não tenham que ser mesários. Então às vezes ocorrem interferências porque as comemorações coincidem.

JC - Os pais devem impor aos filhos um cotidiano?

Mautner – Se eles não colocarem, as pessoas serão “louquinhas”. A ausência de rotina gera personalidades inseguras porque as pessoas são seres vivos que precisam ter segurança. A rotina e as comemorações são uma garantia do dia de amanhã.

JC - De que forma?

Mautner – Comemorando as festas de forma alegre. É um modelo.

JC - Os rituais são escravizantes ou libertadores? Existem aspectos positivos e negativos?

Mautner – Eles são necessários. Vou citar como exemplo uma mãe de família que quer todos os filhos reunidos na hora do almoço. Isto, antigamente, era muito fácil porque ninguém tinha muita coisa para fazer, mas depois que inventaram o automóvel as pessoas querem ir para longe e não se reunirem no almoço. Isto pode representar uma certa dificuldade. Outro exemplo: é ótimo quando as pessoas discutem questões como na casa de quem será comemorado o Natal, onde será o almoço ou onde será a ceia porque isto é um amálgama dos grupos nas famílias. É uma medida da força catalisadora. Não é uma tragédia ficar quebrando a cabeça para decidir se vai à casa da mãe ou da sogra nesta comemoração.

JC - Quando os rituais escravizam? E quando libertam?

Mautner – A palavra certa não é escravizante. Os rituais podem ser desejáveis ou não desejáveis pelas pessoas individualmente, mas eles são necessários para a sociedade. Então não dá para imaginar nenhum grupo social que não tenha dias diferentes dos outros a serem esperados e para os quais todos se preparam.

JC - Quando devemos nos submeter à rotina e como fazê-lo sem que isto interfira na individualidade?

Mautner – Individualidade sem rotina é loucura. Até para a pessoa transgredir ela precisa de uma regra. Se o indivíduo não tem regra para transgredir, não tem vida humana. E o ser humano precisa seguir a rotina da natureza; existem épocas de plantar e de colher. Rebele-se contra isto, rebele-se contra a chuva.

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