Política

‘Falta de federal é carência de líder’

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

Bauru participa de mais uma eleição sem conseguir eleger pelo menos um deputado federal, apesar do colégio de mais de 225 mil pessoas, porque há carência de liderança e de um nome que contagie com seu perfil, conteúdo e posição política. Esta é a avaliação do pesquisador e cientista político Celso Zonta, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Apesar da cidade não ter conquistado uma cadeira em Brasília (DF) no último domingo, Zonta considerou dentro do esperado a pulverização de votos em candidatos de outras praças. Cerca de 78 mil votos foram distribuídos entre 666 nomes de outras localidades para deputado federal (47,6% do universo dos 163 mil votos válidos). A mesma situação só não aconteceu na disputa para a Assembléia Legislativa (AL), reforça o pesquisador, exatamente pela presença de um personagem político com liderança consolidada. Pedro Tobias (PSDB) foi reeleito com mais de 100 mil votos (100.105) somente em Bauru, tendo conquistado 228 mil no total, a segunda maior performance de todo o Estado.

“Não há liderança que contagie a população a exemplo do Pedro Tobias, que consolidou sua liderança após ter acumulado três legislaturas. Em pesquisa próxima da eleição, 68,7% dos bauruenses apontavam que votariam em candidatos de Bauru para estadual e isso se concretizou com a presença do Tobias. Era esperado. Mas a federal há uma lacuna”, avalia.

Outros fatores pesaram contra o desempenho das candidaturas da terra, menciona o cientista político. Um deles foi o índice de rejeição elevado para aqueles que já participam da vida política. “O índice alto de rejeição para o passado de alguns candidatos foi um fator, a imagem ruim e também o índice de desconhecimento em torno de muitos dos que se candidataram”, acrescenta.

Mas, na essência, Celso Zonta analisa que o eleitor não teve opção por um líder para deputado federal. “A inexistência do líder com peso político para concentrar votos não sensibilizou o imaginário local, como aconteceu com o Tobias”, confirma.

Efeito Tobias

Para Celso Zonta, a expressiva performance de Tobias, com mais de 100 mil votos em Bauru, mostra que a cidade quer representantes locais. “Mostra que o bauruense quer representante local no parlamento e atendeu em boa parte a tentativa de se concentrar votos daqui. Mas a escolha pelo Tobias também confirma outras coisas, como a opção pelo único representante que já desempenha o papel de buscar recursos”, cita.

Para o cientista, uma parte da votação em Pedro Tobias se agregou à necessidade de Bauru continuar com seu representante aliado à extrema dificuldade financeira enfrentada pela prefeitura local. “Ajudou nessa votação o fato do eleitor ter construído uma relação entre a dificuldade da prefeitura ter recursos e o fato do Pedro Tobias estar desempenhando esse papel sozinho há anos. Ele era a única válvula disponível com acesso ao Estado e com resultados para mostrar”, reforça.

Outro ingrediente negativo para a disputa a deputado federal em Bauru foi, na avaliação de Zonta, a fragilidade financeira das campanhas locais, ao contrário da estrutura que Pedro Tobias conseguiu para se reeleger à Assembléia Legislativa. “Só o Tobias teve essa estrutura capaz de chegar a muitas cidades com condições e com um partido estruturado por trás e muitas relações políticas já consolidadas ao longo dos últimos anos”, enfatiza.

Outro fato é que as elites locais também não se empenharam na opção por um nome. Ao contrário, a maioria ajudou a pulverizar votos, apoiando candidatos de fora. Da mesma forma, Zonta não viu surpresa nas vitórias dos tucanos José Serra, Geraldo Alckmin e até Afif Domingos ao Senado na votação local. “Eles foram beneficiados em boa parte pela presença do Pedro Tobias por aqui no confronto com o PT”, comenta.

Para o segundo turno, Celzo Zonta acha que o quadro é movediço. “O Alckmin entrou na disputa com dificuldades, mas começa o segundo turno com chances maiores, mais pelos erros do PT na condução do episódio de compra de dossiê contra os tucanos do que pelo carisma do ex-governador, item em que ele fica em desvantagem. Outro erro do Lula foi não ter ido ao último debate, com a significativa audiência. Ficou em parte do eleitor o sentimento da falta de coragem, de fugir da discussão. São efeitos emocionais que pesam, porque confronto de propostas quase não ocorreu”, finaliza.

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