Pyongyang - A Coréia do Norte anunciou ontem que testaria em breve sua primeira bomba atômica, o que provocou uma onda imediata de reações enfurecidas dos EUA, do Japão e da Coréia do Sul. A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, afirmou que um teste nuclear norte-coreano seria “um ato de provocação” e uma “ameaça inaceitável”.
“Uma provocação desta natureza iria apenas isolar ainda mais o regime norte-coreano e negar às pessoas da Coréia do Norte os benefícios que elas merecem”, afirmou o porta-voz do departamento de Estado americano Sean McCormack. Segundo ele, o teste “representaria uma ameaça inaceitável para a paz e estabilidade da Ásia e do mundo”.
O embaixador americano na Organização das Nações Unidas (ONU), John Bolton, pediu o agendamento para hoje de uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança para discutir a questão. Em Tóquio, o recém-empossado premiê Shinzo Abe afirmou que “a comunidade internacional responderá com firmeza” caso o regime de Pyongyang concretize seu projeto.
O governo sul-coreano colocou em estado de alerta suas forças de defesa, enquanto Yang Chang-Seok, ministro responsável pelas relações intercoreanas, exprimiu sua “profunda preocupação” com o anúncio do país vizinho.
Em Moscou, o ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, disse estar preocupado, mas lançou um apelo para que as reações se restrinjam ao campo diplomático. Em Londres, o Foreign Office publicou nota em que alerta a Coréia do Norte para as “sérias conseqüências” de um plano qualificado como “um ato de extrema provocação”.
Guerra retórica
Observadores lembram que o regime norte-coreano tem feito constantemente ameaças - que não saem do plano retórico -, para com isso se cacifar nas negociações para romper seu atual isolamento.
O regime comunista norte-coreano quer negociações bilaterais com os EUA, objetivando a suspensão de sanções econômicas adotadas no ano passado. Mas Washington insiste para que as negociações ocorram no plano multilateral, com seis governos, incluindo o Japão, Coréia do Sul, Rússia e China.
Os contatos entre a Coréia do Norte e o grupo estão congelados desde setembro último, quando o regime comunista recuou de sua decisão de abandonar o programa nuclear com finalidades militares.
A CIA, uma das agências de inteligência dos EUA, acredita que a Coréia do Norte seja capaz de produzir de seis a oito explosivos nucleares. Mas o jornal britânico “The Guardian” lembra que, segundo os serviços secretos do Japão, os norte-coreanos não dispõem de tecnologia para miniaturizar esses artefatos. Ou seja, eles não podem ainda ser transportados por mísseis e se tornar uma ameaça para os países asiáticos vizinhos.
O “Financial Times”, de Londres, cita o ex-subsecretário de Estado americano, Richard Armitage, para quem a chance de Pyongyang efetuar um teste nuclear é de 50%.
Em Seul, Song Young-Sun, especialista em questões de defesa norte-coreanas, calcula essa chance entre 60% e 70%. Por sua vez, a rede americana de TV CNN cita informantes do setor americano de inteligência, para os quais fotografias feitas por satélites têm indicado não muito longe das instalações nucleares norte-coreanas uma movimentação intensa de operários e veículos, no que poderia ser a construção de uma cavidade profunda em que a bomba seria detonada.
Em seu comunicado de ontem, a Coréia do Norte, sem especificar uma data, afirmou que a ogiva seria testada “em condições de segurança”, dando a entender que poderia ser uma explosão subterrânea. Em julho último, o regime norte-coreano efetuou sete testes de lançamentos de mísseis. Mas nenhum deles, segundo especialistas, tinha o alcance intercontinental.