Washington - Dois cientistas norte-americanos ganharam ontem o Prêmio Nobel de Física por algo aparentemente trivial: eles fizeram a foto de um bebê. Um feito na verdade impressionante, quando o bebê em questão é o Universo e a imagem, uma confirmação da teoria do Big Bang - a explosão primordial que deu origem a tudo.
John C. Mather, pesquisador do Centro Goddard de Vôo Espacial, da Nasa (agência espacial dos EUA), e George Smoot, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, dividirão a bolada de 10 milhões de coroas suecas (R$ 2,9 milhões) concedido pela Real Academia de Ciências da Suécia “por sua descoberta da forma de corpo negro e da anisotropia da radiação cósmica de fundo”.
Em bom português, o que eles fizeram foi mapear um tipo de emissão em microondas considerado o “eco” do Big Bang, a chamada radiação cósmica de fundo. Mather determinou o formato dessa radiação, que banha todo o Universo. Smoot descobriu que ela se distribui de maneira irregular pelo cosmo, com diferenças de centésimos de milésimo de grau Celsius na temperatura.
Foi essa irregularidade (a tal anisotropia) que determinou que a matéria no Universo esteja concentrada em galáxias, planetas e seres humanos, como você. Sem esses grumos cósmicos, a matéria estaria espalhada de maneira uniforme por aí - o que seria péssimo para os interesses dos seres vivos.
As observações da dupla foram feitas com o auxílio do satélite Cobe, da Nasa, lançado em 1989, e seus resultados foram anunciados em 1990. Os dados mostram como era o Universo na primeira infância, cerca de 380 mil anos após o Big Bang. Se o cosmo fosse uma pessoa de meia-idade, a imagem do Cobe mostraria o momento em que ele tinha apenas dez horas de vida. “A descoberta inaugurou a era de ouro da cosmologia”, declarou Michael Turner, astrônomo da Universidade de Chicago.
“Com eles, a cosmologia deixou de ser uma ciência puramente especulativa”, disse Ivone Albuquerque, física da Universidade de São Paulo (USP) que trabalhou com Smoot. Na época do anúncio dos resultados do Cobe, o físico pop-star britânico Stephen Hawking foi mais longe: “É a maior descoberta do século, senão de todos os tempos”.
Sem muita surpresa Mather, 60 anos, se disse “emocionado e maravilhado” com o prêmio, mas não completamente surpreso. “As pessoas diziam que nós deveríamos ser premiados, mas esta é uma honra muito rara e especial.”
Acordado às 2h45 em sua casa na Califórnia por um telefonema do comitê do Nobel, Smoot, 61 anos, se disse surpreso, mas com outra coisa: como os suecos descobriram seu telefone. “O lado bom é que agora meus alunos vão prestar mais atenção em mim.” Nenhum dos dois sabe o que vai fazer com o dinheiro. “Embora eu tenha minha hipoteca para pagar”, brincou Smoot.
A radiação cósmica de fundo foi descoberta em 1964, quando os astrônomos Arno Penzias e Robert Wilson detectaram um chiado estranho em suas antenas, que parecia vir de todas as direções do céu. Esse chiado, determinou-se mais tarde, era a radiação em microondas que havia sido prevista pelos teóricos do Big Bang como um “fóssil” da grande explosão. (Ele compõe o barulho que você ouve numa TV fora de sintonia.)