Sempre tento, mas está ficando difícil, fugir do tema saudade, reminiscências, tempos bons... Me amarga a língua quando ouço de meus amigos músicos da noite, aqueles dos barzinhos, que mais cantam por amar a vida das penumbras - certo é que um dia pensaram em querer tentar viver somente de música - que está cada vez mais raro o espaço para se cantar MPB. Referem-se tais meus companheiros, a repertórios recheados de Djavan, Zé Ramalho, Tom Jobim, Alceu Valença et caterva. O violão e o banquinho, com o luxuoso e apenas acompanhamento da timba, percussão com a vassourinha, já não animam mais a galera freqüentadora dos botequins e similares.
Isto só serve para uma constatação: vivemos outros tempos. Que não tira também a certeza que mudanças sempre deixam uma brecha das boas coisas do passado, para que não morramos de saudade, e também nos façam repensar uma mesmice que poderia estar se esgotando nas suas próprias falhas, para que o novo nos permita que seu frescor renove nossa bateria de emoções.
Chico Buarque, do alto andar de seu intelecto, afirmou outro dia com todas as letras que a canção conforme ela foi concebida no século passado, a dita MPB, se esvaiu e acabou como forma de expressão de uma sentimentalidade, de um desabafo, como foi feita em profusão desde o começo do mercado fonográfico. Acredita ele ser o hip-hop, com o rap sendo sua vertente musical, a forma mais atual e penetrante de se dizer algo em forma de música. Como veio de Chico Buarque, há de se prestar atenção. Porém, ele se esquece da cena desconhecida que o mercado do jabá e das gravadoras fez questão de soterrar. Inúmeros artistas e bandas se vêem como um instrumento - que não uma guitarra, muito menos um trumpete - para que empresários e fabricantes de discos ganhem dinheiro. São encaixotados no depósito do “não-serve” toneladas de boas idéias, cardumes de canções, arquipélagos de obras de arte, porque as rádios precisam do apelo imediato, do hit descartável.
Tenho saudade da diversidade dos anos 70. Hoje é sertanejo, pagode, pseudo-reggaes, música de F.M., que cerceiam nossa imensa capacidade de assimilar novidades. Naqueles 70, numa mesma época habitavam nosso universo musical Bee Gees, Doors, AC/DC, Beatles, Stones, Gênesis, Sidnei Magal, O Terço, Caetano, Novos Baianos, Mutantes, Nélson Gonçalves, Ramones, Led Zeppelin. E vou parando por aqui, porque esta lista está incompleta, injusta e ... rica demais.
Da quantidade é que sai a qualidade. Quem é de samba, que sambe. Quem é de macumba, saravá. Quem é do metal, força.
E existia nos bailes de então um estilo de música chamada bolero, que os americanos pessimamente chamaram de beguine. O bolero transforma a paixão numa música lenta, que faz com que você sinta o desespero de uma traição, o frenesi de uma loucura de amor, a falta que um bem faz estando “lejos” de onde estamos. Não é a tragédia do tango argentino. É o mapeamento do desejo na sua forma mais eloqüente, com palavras certeiras, que faziam a gente dançar cada vez mais perto daquela mulher que idealizávamos pela canção, e que estava a dois centímetros de nossas mãos. Não é fácil falar sobre este assunto, porque temos que concordar que certas coisas somente um bolero sabe dizer...
O autor, Marcondes Serotini Filho, é ortodontista, cronista e autor dos livros “O Sonho: Crônicas Escolhidas” e “Os caçadores de tirisco”