Dois anos após dar uma olhadela em suas canções e recriá-las no formato acústico para o projeto da MTV, a banda carioca Cidade Negra aposta mais uma vez em um lançamento gravado ao vivo. “Direto” (Sony BMG), que chega às lojas em CD e DVD, faz um apanhado dos hits da banda desde antes da entrada de Tony Garrido, em 1994, reinventa alguns arranjos, pesa as guitarras no reggae e mostra novas composições que, se não renovam seu repertório de sucessos, devem ao menos agradar aos fãs.
Gravado em abril deste ano na Fundição Progresso, na Lapa carioca, o show teve participações dos Paralamas do Sucesso, com quem o grupo revisitou três músicas de Herbert Vianna; e de Lulu Santos, que entoou novamente sua “Sábado à Noite” e deu a nova “Ninguém Merece” à banda de Garrido (vocal), Da Gama (guitarra), Bino Frias (baixo) e Lazão (bateria).
“Achamos que esse era o momento de fazer um disco ao vivo. Tínhamos esse projeto desde antes do convite da MTV para o ‘Acústico’, que foi altamente irrecusável, já que era uma necessidade da banda participar de um projeto como aquele, encostar um pouco as guitarras, e foi um barato. Mas o Cidade Negra é uma banda de palco, tem uma história bacana com seu público. Realizamos uma vontade do público, que nos cobra um disco ao vivo há oito anos”, comenta Da Gama, em entrevista por telefone ao JC Cultura.
A energia da banda no palco é inegável e o repertório segue certa ordem para privilegiar os grandes hits e algumas das músicas novas, como “Hoje”, “O Paraíso Tem um Tempo Bom” e “B-Boys”. Além das 18 faixas do CD, o DVD apresenta mais 10 – sendo nove inéditas e quatro gravadas apenas em áudio, preparadas em estúdio para os extras do disco.
“Como sempre estamos compondo, decidimos incluir as inéditas e as gravações em estúdio. Quisemos arriscar e priorizar as músicas novas, além de destacar as antigas. É um desafio (colocar diversas músicas novas em um projeto ao vivo) mas queremos que o público possa curtir essas canções também”, aponta o guitarrista.
E falando em guitarra, diversas faixas que bebiam exclusivamente no reggae ganharam arranjos mais guitarreiros no show e serão levadas assim para a turnê que a banda inicia neste mês. “Fizemos show com banquinho e violão, mas a nossa marca é o palco, todo mundo pulando, aquela energia mesmo. Várias músicas tem mais guitarras e mais (intervenções) eletrônicas. A gente vem do ‘Perto de Deus’, que é bem mais raiz de reggae, e optamos por esse peso”, explica.
Da Gama faz questão de frisar que “Direto” não é a turnê de “Perto de Deus” gravada para o DVD. “Esse é um show novo. Escolhemos repertório em estúdio, com o produtor dando idéias. Passamos um pouco por cada época da banda, pela discografia toda. Algumas músicas ficaram parecidas (com as originais), mas optamos por essa idéia de mudar outras, quisemos mexer para dar um ar novo na parada. Por isso o público vai notar os arranjos diferentes”, indica o guitarrista.
De sucessos dos últimos 15 anos da banda, entraram no show “A Sombra da Maldade”, “A Flecha e o Vulcão” – com arranjo mais dançante -, “Pensamento”, “Girassol”, “A Estrada”, “Já Foi”, “Falar a Verdade”, “Doutor” e “O Erê”, entre outras.
A banda e seus hits já foram criticados por serem do tipo que agradam do netinho à vovó e por desvirtuarem o ritmo jamaicano ao pincelá-lo com pop despretensioso em demasia. “Direto” é, de certa forma, uma resposta a tudo isso: uma banda não exatamente no auge de seu sucesso – tentando recuperá-lo, talvez – mas que se empenha no palco para defender sua produção pop brasileira e renová-la.
Em tempo: o DVD, com direção de imagem de Oscar Rodrigues Alves (diretor de “Dois Rios” e “Vou Deixar” do Skank e “Epitáfio” do Titãs), é um dos melhores registros ao vivo de artistas brasileiros já lançados, com cores explosivas e o palco com painéis luminosos que chegam a roubar a visão.