Buenos Aires - Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o candidato de seu partido à Presidência, Geraldo Alckmin, que é “um técnico que estuda os temas, não um improvisado”, é o oposto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tem “comportamento imprevisível” e usa “técnicas populistas”, mas os dois têm basicamente o mesmo programa político. “O programa, em linhas gerais, é o mesmo desde 1994. O que os brasileiros estão escolhendo agora é um estilo de condução. O PT introduziu a utilização da máquina pública para fins pessoais ou do partido, e as pessoas não gostaram disso”, disse FHC ao jornal argentino “La Nación”. “A luta é pelo poder”, falou o tucano.
Questionado sobre a aproximação de Alckmin de políticos com passado duvidoso, apesar do discurso da ética, foi taxativo: “Na política brasileira, é difícil não fazer alianças com pessoas acusadas de algo. Lula o fez e eu também. Nosso sistema requer alianças, requer votos, e, no segundo turno, todo mundo participa. Não há outra forma”.
O ex-presidente afirmou ainda que o desempenho na campanha surpreendeu o próprio PSDB, que no início não acreditava que Alckmin pudesse levar a disputa para o segundo turno. “Pensava-se que Lula era invencível. Alckmin conseguiu uma proeza, porque o eleitor podia se perguntar: por que vou tirar este e pôr no lugar outro que não conheço, se a economia vai mais ou menos bem? Mas Lula começou a dar a impressão de que sua vitória seria um risco, porque tem comportamento imprevisível.”
Segundo FHC, Lula ganhou “no Brasil onde o desenvolvimento econômico é mais fraco e o Estado é mais forte”, “onde os favores políticos são maiores”. “O Brasil ficou dividido, mas não entre ricos e pobres. Ficou dividido entre avançados e atrasados”, declarou ele. Para o tucano, se Lula quiser comparar seu governo com o dele, “vai perder”. Mas FHC se equivoca ao escolher o desemprego como exemplo. “Em meu primeiro mandato, o desemprego era de 5% ou 6%. No segundo, era de 7% a 8%. Agora é de 10%. Ele (Lula) disse que criou 7 milhões de empregos e nós, 700 mil. Como é possível, se agora o índice de desemprego é maior?”, questionou.
Na verdade, a comparação não pode ser feita pois, em 2002, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizou uma ampla modificação conceitual e metodológica. Isso implicou a elevação do patamar do desemprego. Em 2002 (março a dezembro), quando os dois métodos foram usados simultaneamente, a taxa de desemprego média pela metodologia antiga ficou em 6%, enquanto que, na nova, foi estimada em 11,7%.
FHC chegou a admitir que pode ter havido corrupção em seu governo, mas para atacar o petista.