Quando da campanha para a sua reeleição ao governo dos Estados Unidos, em 1996, o democrata Bill Clinton mandou escrever na parede do seu comitê central, em letras garrafais: “It´s the economy, stupid”. Ele quis alertar os seus correligionários sobre a temática única que deveria prevalecer junto aos eleitores, para o seu sucesso nas urnas. Nada de discursos desviantes. Clinton sentia-se fortalecido por índices econômicos favoráveis e que diziam respeito, diretamente, ao bolso dos cidadãos – queda do déficit público, o que significava menos imposto; mais emprego e inflação em queda. Não deu outra. O povo nem quis saber mais do escândalo Whitewater – transações imobiliária irregulares envolvendo o presidente e sua mulher Hillary. Estava de olho no aumento do salário mínimo, o primeiro desde 1991. Clinton foi reeleito e passou por cima de todas as acusações sobre doações ilegais para a sua campanha, uso da máquina administrativa e outras coisas que a gente pensa que só acontecem no Brasil. Nem o caso Mônica Lewinsky foi capaz de atravessar a sua blindagem, durante o segundo mandato.
Se isso ocorre num país de economia central, como os Estados Unidos, imagine no periférico. A Comissão de Estudos para a América Latina, em recente pesquisa revelou que a população que vive abaixo do Rio Grande (delimita a fronteira dos EUA com o México) até a Patagônia austral prefere uma ditadura, desde que lhe garanta algum bem-estar social. Que os governantes enriqueçam à custa do erário, isto é, do próprio povo; que os partidos sejam meros suportes para eleger corruptos. Nada é tão importante. O principal é algum no bolso. Lula sabe disso e vai puxar as estatísticas dos mandatos tucanos para compará-los com os seus números, muito melhores. Basta conferir o debate de hoje entre os dois candidatos do segundo turno, na TV Bandeirante. A não ser que Alckmin consiga ajuda do “demônio de Maxwell”. Explico: em 1871 aquele cientista desenvolveu uma teoria capaz de bagunçar as leis estatísticas, com base na entropia (medida de desordem num sistema) da termodinâmica. Esse diabinho deve ter aprontado em muitas pesquisas de tendência de voto do Ibope, Datafolha, Vox Populi e quejandos (os jornalistas dos anos 60 gostavam muito desta palavra que significa “outros da mesma qualidade”). Erraram muito e não foi só nesta eleição. Isso talvez explique porque Afif deveria ter 30% dos votos válidos, segundo os institutos de opinião, e obteve 43,7%. Mais uma semana de campanha...
O ministro da Fazenda Guido Mantega, com aquela cara de margarina, tem sabido ajudar muito mais que os “aloprados” do partido, mesmo sem se envolver diretamente na campanha. No primeiro turno soltou o pacote da casa própria, com juros menores – “o fato de ser a duas semanas da eleição é apenas uma coincidência”, explicou. Agora, o governo cortou R$ 1,6 bilhão do orçamento e liberou R$ 1,5 bilhão. Lula já disse que está sempre se confundindo: nunca sabe quando age como presidente ou como candidato.
O povo quer garantias de bem-estar, em qualquer cultura. Collor e Maluf estão de volta. No Peru, Alan García Pérez foi obrigado a deixar a Presidência sob denúncias de corrupção e enriquecimento ilícito e agora foi reconduzido ao cargo, legitimamente, pelo povo. É assim que funciona... Não estranhe se Collor voltar também como presidente da República.
De nada vai adiantar ao Geraldo repetir contra o Lula o surrado adágio: “Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. Depois do ‘beijo da morte” do casal Garotinho, pregado nas bochechas cada vez mais pálidas do candidato paulista, Collor, Jader Barbalho, Newton Cardoso e Ney Suassuna estarão perdoados. Antonio Carlos Magalhães também fechou com Alckmin, depois de Lula tê-lo chamado de “hamster”. Perguntaram ao senador Suplicy porque Lula teria escolhido comparar ACM a um animal tão fofinho, querido pelas crianças. A resposta foi muito esclarecedora: “O Lula deve ter errado. Acho que ele quis dizer gangster”.
Senhoras e senhores! O circo continua!
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC