Ser

Símbolos da infância

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 10 min

Mais do que um objeto de consumo, o brinquedo é símbolo dos bons momentos da infância e uma grande oportunidade de desenvolvimento humano. Por intermédio dele, as crianças se expressam, elaboram suas experiências e aprendem a lidar com diferentes situações que, mais tarde, farão parte da vida adulta, aponta Mauro Godoy, psicólogo clínico especializado em antropologia. Segundo ele, que concedeu entrevista por telefone ao Jornal da Cidade, o brinquedo nada mais é do que a linguagem da criança. Em outras palavras, é um instrumento de projeção e expressão. “Como a criança não consegue lidar com as coisas que estão em sua mente, precisa do brinquedo para entender ou lidar com aquilo que está pensando e vivenciando. Desta forma, ela projeta o que está dentro dela em algo concreto”, explica. Essa afirmação justifica a idéia de que o melhor presente para a criança é o brinquedo. Mas, na hora de comprá-lo, os adultos devem levar em conta alguns fatores básicos, aponta Godoy. Além de respeitar a faixa etária da criança, é essencial diversificar os brinquedos. De acordo com o psicólogo, a repetição de qualquer atividade ou brincadeira pode estimular a compulsão e levar ao vício. Na entrevista a seguir, ele explica a importância do brincar e orienta os pais a optarem pelos brinquedos adequados às idades das crianças.

Jornal da Cidade - O que significa brincar?

Mauro Godoy, – Na psicologia, chamamos brincar de ludoterapia, ou seja, uma forma da pessoa expressar, por meio de instrumentos ou objetos, aquilo que está acontecendo em seu mundo interno. A criança até os 5 anos de idade vive apenas seu mundo interno. Em termos práticos, se ensinarmos um jogo para uma criança nesta faixa etária, ela não se interessará e jogará do seu jeito. Se o adulto disser, por exemplo, que ela tem que separar as cartas vermelhas das pretas, a criança jogará tudo para cima.

JC - Qual é a importância do brinquedo?

Godoy – O cérebro humano é formado pela massa cinzenta e a massa branca. A primeira é responsável pelo mundo interno, a intuição e imaginação. A criança tem mais massa cinzenta e precisa de artifícios concretos para conseguir se expressar. Somente depois dos 6 anos, em geral, as pessoas desenvolvem a capacidade de abstração. Ou seja, se perguntarmos para uma criança de 4 anos quanto é três laranjas com mais duas laranjas, ela precisa olhar para as frutas e contá-las. Já a capacidade de abstração faz a pessoa juntar ou pensar no cálculo sem olhar para as laranjas. Por isto criança precisa de objetos para se expressar. E este objeto é o brinquedo. Como a criança não consegue lidar com as coisas que estão em sua mente, precisa do brinquedo para entender ou lidar com aquilo que está pensando ou vivenciando. Desta forma ela projeta o que está dentro dela em algo concreto.

JC - Qual é o papel do brinquedo na história da humanidade?

Godoy – Ele sempre foi um instrumento lúdico, ou seja, de transferência e acesso às emoções. Vou citar como exemplo uma pessoa que é livre e gosta de desafios. Quando está andando de moto, por exemplo, está brincando. Então a moto é seu brinquedo.

JC – Como os brinquedos influenciam na formação das crianças?

Godoy – De fato, são as crianças que influenciam os brinquedos. Elas projetam aquilo que está dentro delas no brinquedo. Não é o objeto que irá influenciá-las. Mas isto vai depender, é claro, da idade da criança.

JC – Então, o brinquedo é o melhor presente para a criança?

Godoy – Sim, sem dúvida.

JC - Quais são os brinquedos mais indicados para cada faixa etária?

Godoy – Até os 5 anos devemos ter em mente que o brinquedo é apenas um instrumento que a criança usará para projetar seus sentimentos. Por isto, nesta faixa etária elas gostam de bichinhos, bonecas e objetos coloridos que sejam fáceis e gostosos de manusear. São os brinquedos lúdicos. Dos 5 aos 10 anos, ocorre o contrário: a criança passa a viver só o mundo de fora. Ela fica absolutamente contemplativa e até meio materialista porque começa a admirar e querer as coisas. E nesta fase, sim, o brinquedo irá influenciá-la. Dos 10 aos 13 anos, é o período em que a pessoa desenvolve a saúde mental ou a relação interpessoal, que é um equilíbrio entre o mundo interno e o externo. Na prática, são as opiniões, ou seja, a criança desenvolverá uma ponte, uma via de acesso entre seu mundo e aquilo que ela vê do lado de fora. Assim, ela se interessa por brinquedos inteligentes, jogos e coisas que estimulam o pensamento e também testam suas opiniões.

JC – De forma geral, que brinquedos não são recomendados para as crianças?

Godoy – Por incrível que pareça, uma arma ou um brinquedo agressivo não são tão ruins quanto a repetição do mesmo brinquedo. É claro que uma metralhadora ou revólver de brinquedo poderá desenvolver o interesse negativo na criança e estimular a agressividade. Assim como, para as meninas, uma boneca Barbie pode estimular o consumismo e a futilidade. Mas é muito pior a criança brincar somente com um brinquedo do que a repetição de qualquer outra atividade ou brincadeira. Se a criança brinca somente com determinada coisa, estará desenvolvendo a compulsão e a vontade inconsciente. E isto gera vício.

JC – Neste contexto, o videogame pode incentivar a compulsão?

Godoy – Ele não deixa de ser uma forma de compulsão se a criança brincar somente com o videogame, porque ela estará repetindo o mesmo processo. Então qualquer brinquedo pode se tornar negativo quando a criança brinca somente com aquilo. É importante variar os horários e diversificar as atividades e brincadeiras porque, além de desenvolver várias áreas do cérebro, isto impede que ela se torne compulsiva.

JC - A tecnologia e o mundo moderno interferem no brincar? De que forma?

Godoy – Acredito que sim. Porém, isto depende da idade. Até os 5 anos isto ocorre raramente porque nesta faixa etária a criança vive somente o seu mundo e não saberá diferenciar algo tecnológico ou não. Mas, a partir desta idade, a tecnologia pode interferir cada vez mais.

JC - Qual é a importância dos brinquedos artesanais e das brincadeiras de rua, entre elas queimada, esconde-esconde e pega-pega?

Godoy – Estas brincadeiras são importantes porque ajudam a desenvolver bastante a criatividade e a capacidade de compartilhar, mas elas estão se perdendo. Antigamente, as crianças não iam para a escola antes dos 3 anos e hoje isto ocorre com freqüência. Apesar do playground ou qualquer outro tipo de atividade que elas tenham em grupo, a tendência é que as crianças passem muito tempo em frente computador. E isto empobrece o lado de contemplação externa e a diversificação de brincadeiras.

JC - O que os pais devem levar em conta na hora de escolher um brinquedo?

Godoy – A realização de uma pessoa, seja criança ou adulto, é a realização do desejo. Então o que os pais devem levar em conta é a vontade da criança e deixar que ela escolha o que ela quer (confiar outras dicas no quadro abaixo).

JC – Mas muitas vezes os pais não permitem o uso de um brinquedo por considerarem maléfico à educação dos filhos. Proibir é a melhor saída?

Godoy – Não. Nunca é a melhor saída porque a proibição leva ao dogma. Ou seja, desta forma, os pais estarão “iluminando” e tornando aquele objeto mais interessante. Em outras palavras, os pais aguçarão mais ainda a curiosidade das crianças. Elas se sentirão desafiadas e tentarão arrumar um jeito de se brincar com determinado brinquedo. Mas, do contrário, se os pais conseguirem destruir a imagem deste objeto, convencendo o pequeno de que ele é ruim ou insignificante, chegará uma hora em que a criança perderá o interesse pelo objeto.

JC - Se o brinquedo for muito caro ou estiver aquém do orçamento familiar, como explicar isto para os filhos?

Godoy – O ideal seria fazer um acordo com a criança. Se o brinquedo custa muito caro e o adulto está disposto a dar outros brinquedos em outras datas, por exemplo, no Natal e no aniversário, ele pode propor para a criança que o brinquedo desejado valerá para as três ocasiões. Agora, se o brinquedo for muito caro e ele não estiver dentro das posses dos pais, é uma questão de explicar os limites e falar a verdade aos filhos.

JC - Brincar é uma atividade exclusivamente infantil? Por quê?

Godoy – Existe um estudo antropológico sobre isto que prova que o ser humano, desde o Homo sapiens, sempre brincou, em todas as idades - se considerarmos o brinquedo como um instrumento de expressão dos próprios sentimentos. É como quando a pessoa tem uma emoção qualquer que não fosse palpável e projeta em um objeto. Por exemplo, o indivíduo sente vontade de amar. Aí ele conhece alguém e transfere para esta pessoa sua vontade de amar e, a partir daí, passa a amar aquela pessoa, a qual se torna um objeto de sentimento para ele. E isto não significa somente amor; pode representar também uma série de coisas, como diversão, alegria e bem-estar.

JC - Os adultos devem participar da brincadeira da criança? Por quê?

Godoy – É importante que os adultos saibam que eles participam da brincadeira mesmo não estando presentes. O processo lúdico, ou seja, a brincadeira da criança, normalmente é de projetar as pessoas do seu mundo nos brinquedos. Ela sempre projetará o pai, a mãe, o tio ou a avó no ursinho, na boneca ou no soldado de brinquedo. Isto é inerente ao ser humano. Isto ocorre mesmo na televisão, quando a criança assiste um filme. Até os 4 e 6 anos, não tem distinção entre bem e mal. Ela só sabe o que é bom e mau e por isto que as crianças até 5 ou 6 anos gostam de filmes de monstro. Elas não gostam de filmes de mocinho e bandido porque não sabem quem está certo ou errado. Até os 6 anos, as crianças costumam ter medo de bicho-papão, aí, no filme, o herói mata o monstro e elas ficam felizes. Esta é a mentalidade delas nesta faixa etária. Então o adulto deve entender que a criança está sempre contando com o adulto e com os pais, mesmo que eles não estejam presentes. No caso do adulto participar da brincadeira, isto é como se ela recebesse uma celebridade ao vivo, é como ser fã de uma determinada banda e, de repente, conferir seu show ao vivo. Isto é uma realização para a criança.

JC – Existe um brinquedo “universal”, que agrada todas as idades?

Godoy – Não apenas a criança, mas em todas as idades, as pessoas gostam da bola. E por incrível que pareça, ela não é exatamente um brinquedo. A bola pode ser comparada a uma mandala.

JC – Por quê?

Godoy - O ser humano tem a personalidade dividida entre o lado externo, que é chamado de “superego”, e o lado interno, que é o lado criança chamado de “id”. E no meio dos dois está o adulto, ou seja, o ego. Juntando os três lados está a personalidade. E o que estimula a pessoa a ter desejos e vontades é a motivação, seu “eu” interior. E este “eu” interior funciona como se fosse uma bola, um círculo. A bola aciona no ser humano seu “eu” interior. Por isto a bola é algo sofisticado, embora também sirva como brinquedo.

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