Tribuna do Leitor

Faltou pimenta


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O Clark Kent brasileiro não esteve acompanhado de Louis Lane, mas se fez belo, apresentando o debate entre os candidatos à Presidência na Rede Globo, no primeiro turno.

O óculos, substituído por fios grisalhos, conferiu a nosso herói um charme similar. A voz, encantadora como sempre. Rosto quadrado, ombros delicadamente robustos, olhar hipnotizante. Pena toda essa sedução esconder uma ironia cruel que zomba da inocência dos brasileiros. Hoje, dos eleitores brasileiros.

O Lula, já bastante baleado ao longo do tempo, não apareceu de novo. Medo ou precaução? Medo, sim, se não se achasse capaz de encontrar explicações para as acusações que certamente lhe seriam proferidas. Medo de ser jogado contra a parede e nela permanecer esmagado. Precaução, já prevendo que seus discursos poderiam ser distorcidos e retorcidos - quando os próprios argumentos são usados contra si - como já acontecera uma vez, ou todas aquelas em que a palavra “derrota” o acompanhou.

Quero que me apresentem caminhos detalhados. Gerará emprego, mas como? Verbas maiores para o saneamento, mas quero saber qual. A que depositaram em contas pessoais ou as que foram pro caixa dois? Em cima do muro eu os vejo. Sem dizer “esse” desagradando “aquele”, “aquele” protegendo “esse”. A cada pergunta uma espetada naquele que se fez ausente. Até como corrupção foi classificada a “fuga”, ninguém perde a oportunidade de acusar nos dias que antecedem as eleições.

Tempo esgotado. E o candidato à Presidência Geraldo Alckmin ainda não se cansou de falar. Quase que perde a vez de pergunta, coisa que Heloísa Helena fez quando, decepcionada ante a traição ideológica petista, não teve tempo de fazer uma pergunta à cadeira vazia que obviamente se manteria calada.

Começou o bate-boca. “Eu não sei o que a senhora fez pela segurança pública, mas eu fiz muito...” Ela responde à provocação no minuto de réplica. E mais uma vez é dever federal. A culpa é daquele que quer permanecer no governo por mais quatro anos. Mais uma vez sobre corrupção. Mais uma vez tempo esgotado, eu nunca sei se ele conseguiu falar tudo o que tinha para falar.

Terceiro bloco. Tema: energia. A discussão continua, é preciso dar corda para o único candidato que, segundo os últimos números, é capaz de “virar o jogo”. Será que ele se enforca? Ela, se diz muito capaz de “possibilitar”. Ele, a acusa de má informação.

Tema: corrupção. Candidato interrogado: Lula. “Por que o senhor não veio ao debate?” Ao menos uma verdade foi dita pelo senador Cristovam. Ainda que estivesse sentado naquela cadeira, estaria a defender apenas um objetivo, a reeleição. Todos os outros princípios já foram perdidos - e agora completo com minhas palavras - na fama que lhe subiu a cabeça.

Nenhuma só vez Alckmin deixou de atropelar o conciso “tempo esgotado”. Propostas excessivas ou saturação intencional, incomodou-me por demais. Mas o humor finalmente chega para descontrair. O remédio para a gripe, senador, é chazinho quente todo dia até as eleições. Pra senadora, mel com própolis. É bom pra garganta.

“Votar com esperança.” Concordo mais uma vez, é o estímulo que nos falta.

Considerações finais. “Façamos com que aja segundo turno.” Não é ele o felizardo, mas pede para que votem naquele que tem chances de fazê-lo. É preciso ser mais claro? Ela quase chorou e, pela segunda vez, “Clark Kent” pede que o público não se manifeste. Nos desculpe, lágrimas sempre emocionam. O segundo preferido, finalmente, se encerra antes de o tempo acabar.

Ah, sim! Quase me esqueci. Às 19h a Rede Globo recebeu uma carta justificativa. Ausência teve como objetivo evitar ofensas por parte dos oponentes. Sem o senhor, confesso, faltou “pimenta”. Pauta quentinha para o Jornal da Globo fazer “ceninha dramática”.

Ana Carolina Lahr - estudante de jornalismo Unesp-Bauru - RG 40.761.927-6

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