Tribuna do Leitor

O peixe morre pela boca


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Em 15 de agosto de 2004, o Jornal da Cidade de Bauru trazia, em sua página 26, a matéria com o título “Deputado, amigo de presidente, faz crítica ao autoritarismo do governo”. Essa matéria de João Domingos, da Agência Estado, transcrevia as palavras do deputado Paulo Delgado (MG), amigo de Lula, face aos primeiros sintomas de autoritarismo do atual candidato à reeleição presidencial.

Secretário de Relações Internacionais da Executiva Nacional do PT, cumprindo o quinto mandato e crítico de todos os governos, diante da repercussão em todos os órgãos da Imprensa, pela liberdade de expressão, que estava ameaçada, alertava: “Não é estável e nem eficaz um Estado só do Executivo. Nosso governo é de coalizão. Não deve querer qualificar de forma unilateral e sindical o conceito de liberdade, honradez e cultura. O Brasil é múltiplo. Não cabe em panelinhas”.

Tratava, esse deputado, amigo de Lula, de alertá-lo sobre os sintomas que já se afloravam de autoritarismo, diante da ameaça perigosa e retrógrada de o Estado poder controlar a informação com o Conselho Federal de Jornalismo, como “impor uma mordaça aos servidores públicos ou autorizar o uso comum, por diversos órgãos, de informações obtidas, com a quebra de sigilo”

Ainda alertando o seu amigo presidente, o deputado fez uma verdadeira profecia, quando, ainda sobre o autoritarismo, disse: “Ele está presente também na antecipação do debate eleitoral de 2006, embora ainda estejamos em 2004...” e continuou seu alerta, afirmando que o PT não poderia seguir o rumo que estava tomando: “Nós nascemos mais amplos do que o discurso tribal, gregário. A liderança do presidente Lula só foi possível porque ultrapassou o mito do líder iluminado esquerdista dos anos 60 e 70”. E arrematava com as palavras: “Minha geração é a geração da anistia e da regressão da ditadura. Não convive bem com essa linguagem restritiva de alquimia jurídica a cada dia”.

Eu relembro essa matéria, que mais se parece como uma profecia, para não saturar ainda mais os amigos leitores com os desgastados e escandalosos acontecimentos que vieram posteriormente e ainda brotam de todos os lados.

Atentem bem para esse fato. Em 2004, o presidente petista recebia uma espécie de advertência de um amigo e colega de Partido. Advertência que parece ter ignorado, fazendo com que o País se precipitasse nesse mar de corrupção, nessa taxa de crescimento que só não é cômica porque é trágica, e todas as demais conseqüências.

A comunicação de que não estaria no debate, promovido por uma emissora de televisão, quando faltava menos de uma hora para seu início, foi uma total desconsideração com todos os órgãos de imprensa e, principalmente, com seus eleitores e militantes do próprio PT que, ainda estavam “amassando barro”, em todo o país, para a sua reeleição. Eles acreditavam que o Lula iria ao debate, pois sabem que “quem não deve, não teme”, como demonstrou o, então candidato a Governador de São Paulo, José Serra que, como o Lula, também estava bem à frente das pesquisas.

Talvez Lula tenha achado que encerrar sua campanha, num comício em São Bernardo, fosse uma bela jogada de marketing. Apenas se esqueceu de seus eleitores, do Brasil inteiro, que o esperavam.

E nesse comício o egocentrismo, característica de todos os líderes autoritários, aflorou cristalinamente, quando ele disse que, para ele, era muito mais importante um comício no lugar em que começou a sua vida política do que comparecer ao debate. Um compromisso com a Nação.

Portanto, os resquícios do autoritarismo não surgiram a partir das denúncias e constatações, dos escândalos, as fraudes e os esquemas de corrupção. Sempre estiveram em sua personalidade.

Mas, como se diz, “o peixe morre pela boca” e ele mesmo disse: “A sabedoria popular levou a eleição para o segundo turno”. E agora, sem poder fugir dos debates, poderá ser analisado.

A sabedoria do povo valeu, sim. E nós, enquanto povo, vamos estar atentos e mais uma vez agiremos com sabedoria, analisando conduta, histórico, firmeza, experiência, honestidade e idéias.

E elegeremos, assim, um presidente capacitado e digno de nossa confiança e de nosso voto.

Carlos Abreu Carvalho - RG 8.087.263-3

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