Nacional

Marcelo Médici faz rir com inteligência

Por Sérgio Salvia Coelho | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Quando estreou em agosto de 2004, “Cada Um com Seus Pobrema” era apenas mais um show de humor entre os vários que a cidade propõe, com um sucesso de boca a boca surpreendente, mas poupado da responsabilidade de ser um “fenômeno”. Agora, reestreando no Teatro Shopping Frei Caneca, que sabe conciliar a demanda de um público de classe média com a qualidade que todo espetáculo deve ter, Marcelo Médici não só ganhou visibilidade como se tornou quase onipresente.

Mais do que festejá-lo pela fama, é preciso registrar que Médici, muito antes de ser “o Fladson de Belíssima”, aprendeu no Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho a querer mais que o sucesso, e por isso foi em busca da técnica precisa da comédia.

O espetáculo, portanto, era desde a estréia uma antologia de personagens de sucesso: Dona Creuza, carismática funcionária da escola de teatro Célia Helena, é imitada há gerações pelos alunos, e o corintiano Sanderson já tinha vencido o Prêmio Multishow de Humor, em 1998, na categoria “stand-up comedy” quando foi rebatizado de Zoinho.

Médici é um ator caricato e apenas com a contração do seu rosto faz máscaras que definem personagens e permitem que passe instantaneamente da empresária coreana Yumi - estrábica, de sorriso congelado - à médium Mãe Jatira, cujo esgar na boca intimida e ao mesmo tempo denuncia sua picaretagem. Cada personagem tem sua postura, seu sotaque, sua referência cultural, que o esperto figurino de Cléber Montanheiro - que assina também o cenário igualmente minimalista - define com agilidade.

Se a caricatura viva permite que figuras famosas passem rapidamente pelo palco - Médici é implacável com Marília Gabriela -, ela é perigosa quando se permite reforçar preconceitos. Isso é evitado não só pelo grande poder de observação do ator, que faz com que cada tipo seja cuidadosamente individualizado, como pelo cuidado em fazer valer o ponto de vista de cada personagem.

Assim, a piada que deu origem ao Mico Leão Dourado - o Ibama quer que ele se reproduza, mas ele é gay - é a ocasião para que o universo do travesti, de humor escrachado e quase trágico em sua autoironia, seja evocado com tanto arrojo que se torne quase um emblema do grupo. E não são apenas as minorias que são ridicularizadas - Jonson, o “irmão” modelo e surfista que, sem talento, se dá muito melhor na TV que o protagonista.

E é esse personagem central que faz com que o espetáculo vá além do “stand-up”. Embora se dirija diretamente ao público, ele nunca se confunde com o próprio Médici, que assim não pode ser acusado de arrogante. É um ator medíocre, desesperado em convencer a família de seu talento. Dessa forma, o que bastaria como uma simples colcha de retalhos se firma como um roteiro consistente. Com seu humor implacável sem perder a ética jamais, que confia na inteligência do público sem pudor de almejar antes de tudo o riso, “Cada Um com Seus Pobrema” merece todo o sucesso que tem e prova que o sucesso não está condenado a ser prêmio pela mediocridade, nem o humor, sinônimo de facilidade.

É um esforço para a vida toda e abre caminhos ainda mais amplos para um comediante que, como todos sabem, é bem mais que um sujeito engraçado. Marcelo Médici é um ator pleno.

• Serviço

“Cada um com Seus Pobrema”, toda terça e quarta, às 21h no Teatro Shopping Frei Caneca (rua Frei Caneca, 569), até 29 de novembro. Ingressos: R$ 30,00. Informações: (11) 3472-2229 e www.ingressorapido.com.br.

Comentários

Comentários