Guarulhos - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta inovar o discurso no segundo turno ao sustentar que o projeto do PT é distinto do PSDB, mas repetiu ontem, em Guarulhos, a frase que gerou polêmica na primeira fase da eleição: “Agora faltam 20 dias, 20 dias para a oncinha beber água outra vez”, afirmou.
Lula usou exatamente o mesmo ditado no dia 24 de setembro, em Sorocaba, confiante na vitória em primeiro turno. Ontem, Lula fez fortes críticas ao PSDB e a Geraldo Alckmin: “Queria dizer para os homens que jogam truco. O blefe tem perna curta. A pessoa pode blefar uma vez, duas vezes. Uma hora ele vai tomar um seis que ele vai ter que recuar”.
O “seis” é a aposta quando se exige que o adversário mostre a carta na mesa. Vale o dobro de pontos da jogada normal. Em Brasília, no Palácio do Jaburu, o presidente já havia recorrido à mesma metáfora do truco e acusou Alckmin de liderar um projeto de “desmonte”, de “demagogia” e de “blefar” o tempo todo.
Lula disse que vai “trucar forte”, mas está certo de que vencerá o jogo sem blefar. Lula mostrou disposição, ao iniciar o comício relâmpago em Guarulhos, para não ser “o candidato de uma nota só”: “Não vou falar de obras, não vou falar de Bolsa Família, não vou falar de viaduto, não vou falar de universidade, não vou falar do Farmácia Popular, não vou falar de hospitais. Não vou falar de nada. Eu vou falar de uma outra coisa. É extremamente importante que essas eleições tenham ido para o segundo turno para que o jogo fique mais claro. (...) O povo vai poder distingüir entre dois projetos. O deles a gente já conhece há muito tempo”, disse.
Pouco depois, ele repetiu a frase da “oncinha” e voltou a falar do preço do arroz e do saco de cimento. Ao finalizar o discurso, após uma caminhada no centro de Guarulhos, ele afirmou ainda que vencerá “na cidade de São Paulo”. Lula estava acompanhado por Marta Suplicy, do senador reeleito Eduardo Suplicy; do candidato derrotado ao governo, Aloízio Mercadante, e dos ministros Luiz Marinho (Trabalho) e Luiz Dulci (Secretaria Geral).
Território dividido
A campanha do petista tenta reduzir, em duas semanas, a ampla vantagem de Alckmin em São Paulo sobre Lula. O PT perdeu terreno para o tucano em antigos redutos eleitorais, como Guarulhos, onde Lula perdeu por 47,69% a 41,29%. O discurso sobre “dois projetos”, com ênfase no viés privatista adotado em gestões de FHC e Alckmin quando governador de São Paulo é uma tentativa do presidente de conquistar boa parte dos votos de simpatizantes de esquerda que optaram, no primeiro turno, ou por Heloísa Helena (PSOL) ou por Cristovam Buarque (PDT).
Em Guarulhos, por exemplo, a senadora tevem 9,28% dos votos válidos, e Cristovam 1,5%. Lula afirmou que o projeto do PSDB é “o das privatizações, da diminuição dos salários, do sufoco dos aposentados, que não criou uma única universidade em oito anos de governo, que não cuidou da segurança pública e sequer cuidou da Febem, o projeto do apagão, e da subordinação externa”.
Já, segundo o petista, o projeto que ele representa é o do “combate à corrupção, da criação de emprego com aumento de salário, da inclusão social, do investimento em educação”. Lula também referiu-se ontem a Alckmin como “aquele cidadão que é especializado em destruir em dois minutos aquilo que a gente constrói em dois séculos. Ninguém sabe o sacrifício que foi para construir.”
Privatização
Ontem pela manhã, em entrevista à Rádio Bandeirantes e à Bandnews, o presidente já havia criticado o tucano. Questionado especificamente sobre a promessa de Geraldo Alckmin de vender o avião presidencial comprado durante a sua gestão à frente do governo federal - apelidado de Aerolula -, o presidente disse que ficou “irritado” com a “pequenez” do comentário.
“Só um maluco acha que pode realizar viagens internacionais com um avião de carreira”, disse. Em seguida, aproveitou o tema como mote para falar novamente de privatizações. “A única coisa que ele (Alckmin) sabe fazer é vender coisas. O PSDB não devia ser candidato a nada. Devia ser candidato a (dirigir) uma empresa de vender empresas estatais”, afirmou o presidente.
Questionado, no entanto, sobre a possibilidade de privatização de trechos de estradas federais no sul do País, Lula não assumiu compromisso nem de fazer nem de não fazer a concessão das rodovias a empresas privadas.
“O Estado brasileiro pode fazer concessões se elas forem vantajosas para o povo brasileiro. Se não forem, não dá”, respondeu. Na entrevista, o presidente repetiu que sentiu profunda tristeza pela qualidade da intervenção de seu adversário.