Sabe, eu já vi muita coisa acontecer em pescaria e muitos acontecimentos parecem realmente que não são verdadeiros, mas são. Eu tenho um amigo que trabalha demais e ele está todo o tempo estressado, parece que sai até fumaça de sua cabeça. Ele até comprou uma chacrinha, construiu ali um lago, colocou nele algumas espécies de peixes, plantou umas árvores em sua volta, construiu ali um quiosque, fez um “giral” para pescar, inclusive com iluminação, o “trem” ficou caprichado mesmo.
Mas nem tudo é maravilha, vai vendo, não é que a mulher dele engravidou e começou ficar enjoada dum tanto que dava medo? O coitado não podia fazer mais nada, a vida dele era trabalho-casa, casa-trabalho, de noite nem dormia direito porque a esposa ficava falando: - Tô com vontade disso, tô com vontade daquilo e tô com desejo daquilo outro. E sabe como é que é, desejo de mulher grávida tem que ser atendido senão a criança nasce parecida com o objeto do desejo da mãe. Pois bem, foi indo, foi indo que um dia ele se encheu e falou: - Quer saber de uma coisa? Vou passar o final de semana na chacrinha sozinho, vou descansar.
Juntou umas tralhas, comprou um pouco de cerveja e um pedaço de carne e foi. Chegou lá, deu um varrida no quiosque, ajeitou uns anzóis pra pescar trairão, tomou uma espumosa porque já estava anoitecendo, tomou outra e mais outras, comeu alguma coisa, carregou uma espingarda, colocou-a do lado da cabeceira da cama e puxou o ronco.
Duas horas da matina o celular toca e ele atende, adivinhem que era? É isso mesmo, a esposa com uma voz rouca e toda dengosa: - Benhêêê, tô morrendo de vontade de comer carne de codorna, mas tem que ser hoje cedo, tô até com febre...
O coitado pegou a espingarda e saiu pasto afora na esperança de encontrar alguma codorna. Sorte que era lua cheia e a noite parecia dia, e não é que o danado encontrou a codorna? Só que ela estava ciscando o estrume de uma égua que ali estava pastando. Aí ele pensou: - Da posição que eu estou, se atirar, alguns chumbos irão atingir as pernas da égua. Então resolveu dar meia volta e ficar de lado.
Mas quando ia se ajeitando na posição certa ouviu um barulho bem atrás numa moita de capim, virou pra ver o que era e deparou-se com uma bela capivara. Pensou: - Puxa vida, que sorte, vou atirar na capivara e a codorna eu caço logo que amanhecer o dia. E, bummm, arrastou o dedo, formou-se um fumaceiro e um poeirão danados.
Quando a poeira e a fumaça foram embora, ele viu o que tinha acontecido: a capivara estava morta, a égua assustou com o tiro, deu um coice e matou a codorna, alguns chumbos que se extraviaram mataram quatro trairões que estavam na rasura do lago. Ele juntou tudo aquilo, jogou dentro da caçamba da picape e veio embora antes de amanhecer o dia com medo da policia ambiental.
Ivo de Jesus Ribeiro é eletricitário aposentado, pescador e contador de histórias.