Quando eu era criança, terminadas as tarefas escolares, a rua Gérson França, quadra sete, era uma constante sedução: ali se achava o espaço dos jogos e brincadeiras. Na rua empoeirada, não havia paralelepípedos, muito menos asfalto, sem a ameaça de automóveis e assaltantes, brincávamos de pique, de bandido e mocinho, jogávamos bola de meia, taco, bolinha de gude. Eram tempos bons! Nós corríamos ao ar livre, pisávamos na areia macia, respirávamos ar puro. Mas havia no ar uma tensão permanente. Nosso paraíso era provisório. A qualquer momento - em geral no melhor do jogo - ouvia-se a voz aguda da mãe: - Sai da rua, menino!
Não adiantava chorar nem gemer. As mães, naquele tempo, eram inflexíveis. E sempre tinham os melhores motivos para recolher suas crianças sujas, de joelhos ralados, era hora do banho, aproximava-se o jantar, “seu Pai” tinha chegado, era hora de dormir... E as mães sabiam impor limites e prevaleciam sempre. Bons tempos. Foi neste ambiente de muita paz e respeito que, como criança, cresci e tive os meus sonhos. Adultos vegetam e perdem o presente, achando que sonhar é coisa de criança e é mesmo... Desde criança sempre gostei do mar e essa paixão se revelou forte, quando brincava de barquinho nas enxurradas. Ficava triste por não saber onde iam parar. Chegavam ao fim? Que fim? Ver que os que eu fazia, conseguiam vencer a força das águas, sem afundar, para mim era a glória. Nas férias, ia à praia e ficava perscrutando o horizonte em busca da imagem serena e misteriosa dos navios. Via-me como um navegador. Dono do mundo, aquele mundo flutuante. Um dos meus sonhos, nascia ali, construído pelas minhas mãos, pelos meus olhos e, certamente, por um dado exterior que não dependia de mim, a água da chuva violenta e bonita, a força do mar amedrontadora e majestosa.
Outra alegria minha, quando criança, era construir canudinhos de papel, colocá-los em um canudo extraído do mamoeiro e soprá-los contra as casas de abelhas e marimbondos. Eram meus foguetes, lançava-os contra imaginários inimigos, que, talvez, um dia viessem atacar-me ou que gostaria de despertar, mostrando-lhes que aquele mundo era meu. E os aviõezinhos de papel, que beleza vê-los voar e aterrisar suavemente a metros de distância. Voar era o meu sonho. Nada melhor do que eu estar por cima de tudo e de todos. Influenciado pelos meus pais profundamente religiosos e morando a poucas quadras da igreja Santa Teresinha, tornei-me coroinha. Vejo-me, com saudade, vestido com aquela capinha vermelha e sobrepeliz de longas mangas, sapatos bem engraxados, rodeando o altar como turiferário e acólito, respondendo ao celebrante naquele impecável (nem tanto!) latim da época.
Foi a intimidade com o altar, o ambiente sagrado, o clima das celebrações, as profundas impressões gravadas entre incenso e campainhas, tudo somado à figura do padre, pároco da igreja Santa Teresinha, na época Dom Pedro Paulo Koop, que presidia à comunidade, que foi despertando em mim, criança, o desejo de abraçar o ideal de ser um dia sacerdote também. Aos dez anos, fui para o “colégio dos padres Missionários do Sagrado Coração de Jesus (MSC)”, em Piraçununga, onde permaneci cinco anos dedicados à oração, ao trabalho, estudo e lazer. A saudade foi o meu terrível e implacável algoz, não conseguia mais viver longe da minha família. A minha vocação balançou. O meu sonho se desfez. Enquanto criança, via o futuro com os olhos de sonhador: Navegador, Astronauta, Evangelizador.
Hoje, como professor aposentado, realizei e vivi esses sonhos nesta profissão que procurei sempre dignificar: como Navegador, tenho ensinado os meus alunos a singrar os mares tempestuosos da vida; como Astronauta orientei-os como chegar até os astros por caminhos ásperos e, como Evangelizador, transformei-os em cidadãos honestos, cumpridores de seus deveres e defensores de seus direitos. Vale a pena ter sonhos... é fundamental alimentar sonhos... maravilhoso, sim, é realizar e viver os sonhos.
O autor, Gino Crês, é professor