Tribuna do Leitor

Medicina não resolve


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Caro leitor e autoridades do poder público desta cidade. Sou médico, há 13 anos vivo em Bauru e por todo esse tempo tenho convivido com os problemas da administração deficiente da saúde pública desta cidade e ouvido sempre a idéia falsa de que a solução está em uma faculdade de medicina e no número de médicos na cidade. Após ler as recentes reportagens sobre a transferência da Faculdade de Medicina da Unimar para Bauru e ler hoje (7/10) a reportagem sobre a relação de médicos por habitante em Bauru e região, me dei por saturado com o assunto e profundamente preocupado resolvi escrever. Primeiramente sobre a tão sonhada faculdade de medicina. Entendam que esta não resolverá o problema , pois uma faculdade de medicina não tem objetivo primariamente assistencial e sim acadêmico.

Um hospital escola não tem a mesma resolutividade que um Hospital Geral Assistencial - Hospital de Base, por exemplo. Saibam que na Faculdade de medicina também tem fila para atendimento e cirurgia e que pacientes esperam mais de 1 - 2 anos para uma cirurgia eletiva, pois os residentes são quem escolhem quem desejam operar de acordo com a sua necessidade de aprendizado e treinamento.

Hoje sou anestesiologista, trabalho no Centrinho, Beneficência Portuguesa e Hospital da Unimed e independente do hospital em que esteja faço em média 5 anestesias por dia. Na faculdade (FM - Unesp - Botucatu) fazia 2. Uma simples cirurgia de histerectomia que nesses hospitais é feita em 50 minutos a 1h e meia, na faculdade leva mais de 3 horas. Lembrem-se que os profissionais que atendem na faculdade ainda estão em treinamento.

Prova do que eu digo é o tão falado e sonhado Hospital Estadual, que é uma mescla de Hospital Escola e Assistencial que já está funcionando há bom tempo e pouco contribuiu para a melhoria da situação. Outro fato é que Hospital Escola é deficitário e não há outro motivo a não ser o prejuízo financeiro que está motivando o dono da Unimar a trazer a faculdade para cá. Pensem bem: a faculdade pode vir a trazer em vez da tão sonhada solução ônus financeiro para a cidade. Países desenvolvidos com política de assistência em saúde eficiente têm menos faculdades de medicina que o Estado de São Paulo. Outra questão a tratar é o número de médicos na cidade. A OMS , uma organização séria, preconiza um médico para cada mil habitantes como o ideal e Bauru tem muito acima disso.

Devemos entender que a OMS ao preconizar este número o faz inserido em uma política de saúde decente, com estrutura correta para o atendimento e Bauru como não tem administração competente para montar esta estrutura, tem os problemas agravados a cada ano, independente do número de médicos na cidade. Portanto, parem de achar que o problema é falta de médico e de faculdade de medicina.

O problema é administrativo. Para resolver o problema nos faltam administradores. Portanto, caros bauruenses, cobrem atitudes e competência do poder público desta cidade, é apenas disso que precisamos, o resto é desculpa para desviar o foco e iludir com soluções que talvez atendam o interesse de alguns em particular , mas que pouco contribuirá para a mudança do cenário caótico que hoje existe.

Lourenço Antonio Zequi - médico anestesiologista em Bauru - CRM 65.268 - RG 10.418.576

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