Internacional

‘Banqueiro dos pobres’ ganha Nobel

Por Raul Juste Lores | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

São Paulo - O prêmio Nobel da Paz foi concedido ontem ao banqueiro Muhammad Yunus, 65 anos, de Bangladesh, e a seu Grameen Bank. Yunus é conhecido como o “banqueiro dos pobres”, por ter desenvolvido o sistema de microcréditos - empréstimos de valores quase irrisórios que ajudaram milhões de miseráveis em Bangladesh, que de outra forma não teriam acesso a crédito no sistema bancário.

Sua escolha foi uma surpresa por estar fora dos circuitos diplomáticos ou de resolução de conflitos bélicos. “Uma paz duradoura não pode ser alcançada ao menos que grandes parcelas da população possam sair da pobreza”, declarou o comitê que entrega o prêmio. “Erradicar a pobreza pode nos dar uma paz real”, declarou Yunus, que anunciou que doará US$ 1,4 milhão do prêmio à criação de um hospital de olhos, entre outras obras humanitárias em seu país.

Economista que estudou nos EUA, Yunus começou a emprestar dinheiro de seu próprio bolso a pobres em Bangladesh que não tinham acesso a linhas de crédito convencionais. Em 1976, ele emprestou o equivalente a US$ 26 a 42 mulheres que faziam cadeiras de bambu. O grupo pôde pagar pouco depois o empréstimo, que ajudou que elas comprassem mais matéria-prima.

Revolução financeira

Nos anos 80, com apoio governamental, ele criou o Grameen Bank. Mais de 6,5 milhões de pessoas contam com empréstimos do banco, de US$ 130 em média cada um, e a devolução chega a quase 99%. Contra os prognósticos pessimistas, a inadimplência é mínima. Cerca de 90% do banco pertence a bengaleses que pedem empréstimos - depositam e confiam no banco. A idéia foi copiada e adotada em mais de 50 países.

Estima-se que 100 milhões de pessoas em todo o planeta já tenham sido beneficiadas por algum microcrédito. Vários especialistas ouvidos pela reportagem chamam o sistema de “revolucionário”.

“Esse novo sistema alterou radicalmente o tipo de serviços financeiros disponíveis aos pobres da Ásia, da África e da América Latina”, diz o professor Craig McIntosh, da Universidade da Califórnia em San Diego, que passou um ano estudando o impacto dos microcréditos em Uganda. “Inquestionavelmente, demostrou que é possível fornecer empréstimos e até planos de previdência e poupança, com alguma margem de lucro.”

Poder às mulheres

Quase a totalidade dos empréstimos - 96% - é concedida a mulheres na zona rural do país, um dos mais pobres do mundo, com 146 milhões de habitantes. “Além de ajudar os mais pobres entre os pobres, o Grameen inovou ao priorizar as mulheres, as mais necessitadas na sociedade bengalesa”, conta o professor Kabir Hassan, do Instituto Americano de Estudos sobre Bangladesh e professor convidado da Universidade de Dacca. “Em Bangladesh, uma sociedade islâmica ortodoxa, as mulheres se casam muito cedo, têm muitos filhos e sofrem com o analfabetismo e machismo. O banco está provocando uma mudança gradual ao dar poder a elas.”

América Latina pioneira

Na América Latina, os microcréditos já foram concedidos a 6 milhões de pessoas e a 500 mil microempresas em mais de 20 países. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) começou o programa em 1978, quando a economista Beatriz Harretche concedeu um empréstimo de US$ 100 a uma cooperativa têxtil uruguaia.

“Ambas as experiências inovam ao atender pessoas que não tinham como empreender”, diz o gerente sênior do Departamento de Desenvolvimento Sustentável do BID, Antonio Vives. Os empréstimos atuais do BID em microcréditos chegam a US$ 6 bilhões. “Nos países mais pobres, onde há pouco crédito, esses empréstimos ajudam até na compra de ferramentas para o artesanato”, diz.

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Alternativa ao sistema bancário

Oslo - Os microcréditos se tornaram uma alternativa ao sistema bancário convencional para quem não tinha acesso a um empréstimo. Yunus começou sua experiência com grupos de mulheres na zona rural de Bangladesh. Quatro mulheres pegavam um empréstimo em conjunto, “solidário”, e o grupo se responsabilizava quando alguma não podia pagar a sua parte.

Mesmo sem fiadores, o conceito de honra em sociedades tradicionais e onde todos se conhecem prevaleceu. O nome era o grande bem de quem pegava o empréstimo. “Sociedades muito desiguais levam à exclusão bancária. Nosso sistema bancário não contempla os segmentos mais pauperizados”, diz o economista Márcio Pochmann, professor da Unicamp.

O sistema de microcréditos também foi aplicado no Brasil, assim como em outros 20 países da América Latina. O Banco do Nordeste, em Fortaleza, o projeto “São Paulo confia”, entre a prefeitura paulistana, bancos e organizações não-governamentais, e o Banco do Povo, no Rio Grande do Sul concedem o benefício. “Mas a escala ainda é pequena, a legislação brasileira restringe muito a iniciativa. Ainda não pode haver contas de poupança nesse sistema, como em Bangladesh”.

O país asiático foi beneficiado muito além dos créditos. “Apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, o Bangladesh tem uma rede de organizações civis muito inovadoras, entre as quais o banco Grameen”, diz a professora Anaya Roy, do Departamento de Estudos Internacionais da Universidade da Califórnia-Berkeley.

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