Nova York - As delegações do Japão e dos EUA afirmaram ontem que o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) deverá votar hoje pela manhã as aguardadas sanções contra a Coréia do Norte, em razão de seu teste nuclear na última segunda.
O embaixador americano nas Nações Unidas, John Bolton, afirmou que o Conselho de Segurança “concordou basicamente com a votação já no sábado”, mas advertiu que o texto poderá sofrer mais mudanças. Ele apresentou uma terceira versão do projeto de resolução, capaz de neutralizar as objeções da China e da Rússia.
Diplomatas russos e chineses afirmavam ontem à noite que o texto ainda precisaria ser “aperfeiçoado”. Seus governos voltaram a afirmar que se opõem a “sanções extremas”, disse o chefe da diplomacia russa, Serguey Lavrov. Mas chineses e russos também afirmavam que um consenso está muito próximo, o que parece não comprometer o cronograma de votação.
Os EUA recuaram da intenção de evocar de modo sumário o Capítulo 7 da Carta da ONU, que constata “ameaça à paz internacional” e deixa aberta a possibilidade de uma intervenção militar contra a ditadura do país comunista. O capítulo continuará a ser mencionado. Mas com duas ressalvas: é citado o artigo 41, que exclui o uso da força militar; em outro momento, o texto de cinco páginas afirma que qualquer outra medida - como um eventual ataque à Coréia do Norte- deverá ser objeto de nova resolução. A delegação americana queria de início que o embargo abrangesse a venda de qualquer tipo de arma.
Em nova concessão, Bolton aceitou a proibição da venda só de equipamento militar pesado, como blindados, helicópteros e mísseis. “Estamos no caminho certo, embora não tenhamos ainda um texto definitivo”, disse o embaixador russo, Vitaly Churkin.
Quanto à China, seu embaixador, Wang Guangya, disse não entender a proibição da venda a Pyongyang de artigos de luxo. O embaixador americano respondeu com humor: “A população norte-coreana tem emagrecido tanto nos últimos anos, e é chegado o momento de forçar (o ditador) Kim Jong-il a fazer um pequeno regime”.
Mas a verdadeira objeção chinesa era outra, segundo o embaixador da França, Jean-Marc de La Sablière. Pequim teme confusões na inspeção de cargueiros a caminho de portos norte-coreanos ou que tenham zarpado deles. No caso, a concessão americana foi a de tornar as inspeções facultativas.
Os EUA também afirmam que as inspeções serão seletivas, poderão ser feitas nos portos de embarques ou na própria Coréia do Norte, com a anuência das autoridades locais - o que já parece menos verossímil. A terceira versão do projeto manteve a proibição de concessão de vistos a norte-coreanos envolvidos em programas de mísseis ou de armas.
O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA disse que a secretária de Estado, Condoleezza Rice, viajaria na próxima semana para Pequim, Seul e Tóquio, para discutir “a implementação da resolução”.
Depois do Japão, que anteontem divulgou relatório segundo o qual não detectou indícios de explosão nuclear na atmosfera norte-coreana, ontem os EUA e a China deram informações semelhantes. Os EUA utilizaram um avião WC-135 para sobrevoar área próxima às águas territoriais norte-coreanas. A China não citou o equipamento usado.
Panorama da crise
O teste nuclear da Coréia do Norte pode mudar radicalmente o delicado equilíbrio de uma região em que os interesses de EUA, China, Japão, Rússia e das duas Coréias batem de frente:
Coréia do Norte
Após suspender em novembro de 2005 as negociações em seis partes sobre seu programa nuclear e de testar, em julho último, sete mísseis com capacidade de transportar ogivas nucleares - nenhum de alcance intercontinental -, o ditador Kim Jong-il anunciou na última segunda-feira o teste de uma bomba atômica.
China
Único aliado de Pyongyang, o presidente Hu Jintao vê na Coréia do Norte uma espécie de zona-tampão entre Pequim e Seul, aliada de Washington. Mas a prioridade chinesa é evitar a instabilidade na região e, por isso, o país viu o teste norte-coreano como uma traição e um fracasso de sua diplomacia.
Rússia
Nos últimos anos, o presidente Vladimir Putin tem mantido relações cordiais com o regime de Kim Jong-il. Após os testes, no entanto, o Kremlin demonstra preocupações com o contrabando nuclear na fronteira norte-coreana.
Japão
O recém-empossado premiê Shinzo Abe diz não ter intenção de mudar a política japonesa de abstenção de armas nucleares. Mas alas linha-dura de seu governo vêem no teste norte-coreano uma justificativa para passar por cima da Constituição pacifista do país e desenvolver um potencial atômico bélico.
Coréia do Sul
Tecnicamente em guerra com o norte desde 1950, o presidente Roh Moon-hyun sofre pressões para abandonar a política de cooperação e paz com Pyongyang. Seul, que abriu mão de um programa nuclear bélico nos anos 70, teme tanto uma Coréia do Norte nuclearizada quanto o colapso súbito do regime vizinho.
EUA
O presidente George W. Bush, que tem 50 mil soldados no Japão e 30 mil estacionados na Coréia do Sul, pode acelerar a ativação de um escudo antimísseis - que, por sua vez, levaria ao aumento de gastos militares por parte da China e da Rússia, ameaçadas pela invulnerabilidade americana a seus mísseis.